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Michel Alcoforado

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Histórico

O ano dos “troublemakers”

Michel Alcoforado

2013-03-20T19:04:00

13/03/2019 04h00

Foi na saída do elevador de um hotel em Nova York que minha avó, perto de completar 90 anos, me puxou pelo braço como se quisesse ter papo sério:

– Depois de andar pelas ruas modernas daqui, me lembrei que há muito tempo estou com uma dúvida que gostaria de te perguntar.
– Hum.. diga.
– Laptop e WhatsApp são a mesma coisa?

Sem saber o que dizer, respondi apenas com um não, sinal para mudarmos de assunto. Minha avó continuou:

– E isso muda alguma coisa pra mim?
– Acho que não, vó. Continua tudo igual pra você.
– Então, tá bom.

A conversa revela posição de alguém que, diante do intenso ciclo de transformações do mundo, em algum momento, perdeu o fio da meada e já não consegue diferenciar o aplicativo mais popular do Brasil de um computador portátil.

O impacto dos avanços tecnológicos na vida cotidiana é enorme e se capilariza nas ações cotidianas mais simples. Para chamar um táxi com desconto, é preciso entender como funcionam os aplicativos, os smartphones, a contratação dos pacotes de internet, as faturas de cartão de crédito etc. E se, por acaso, perdermos um pedaço dessa história, vai ficando cada vez mais difícil entender o mundo em que vivemos. Aconteceu com a minha avó e pode acontecer com qualquer um. Parece que é preciso saber de tudo sempre.

Não é à toa que os festivais de tecnologia e inovação crescem em ritmo exponencial. O South by Southwest (SXSW) é um bom exemplo. Criado em 1987, em Austin, no Texas, por um jornalista do Austin Chronicle, todos os anos, o evento reúne profissionais de diversas áreas dispostos a compartilhar ideias e aprender sobre as principais inovações do mundo.

No primeiro ano, o evento contou com 700 participantes. Hoje, são mais de 100 mil de 102 países. Durante o festival, Austin se transforma na capital internacional da inovação. Pelas ruas, há uma multidão temerosa por não acompanhar o desenrolar da história. "É preciso estar atento", dizem. Eu completo lembrando uma música de Caetano Veloso: "É preciso estar atento e forte".

Isso porque na mesma medida que tomamos conhecimento das novas tecnologias e as inserimos na resolução dos nossos dilemas cotidianos, o uso rotineiro cria outros problemas com tamanho e valores distintos. E mais, cobram da sociedade e das autoridades discussão plena sobre os limites, os usos e a criação de uma regulamentação. Isto é, seguimos resolvendo uma série de tensões do presente e criando outras que impactarão fortemente nossas vidas no futuro.

Até agora, parece que o South by Southwest de 2019 apresenta mais aflições do que novidades. Neste ano, não foi lançada nenhuma nova empresa com a promessa de mudar o mundo tal como fizeram, anos atrás, os fundadores de Twitter, Foursquare e outros. A grande agonia por aqui é compreender o impacto das novas tecnologias na vida das pessoas.

As empresas de tecnologia continuam vindo ao evento contar as novas particularidades de seus produtos, mas permanecem mudas sobre o impacto das suas invenções. Já sabemos e ouvimos novamente que os algoritmos, a inteligência artificial, o blockchain, a mineração dos dados, o comando de voz, o reconhecimento facial e corporal são uma realidade, mas ninguém ainda sabe o que será de nós depois disso tudo.

As melhores palestras SXSW de 2019 são as lideradas pelos "troublemakers" ("encrenqueiros", "criadores de caso", em tradução para o português): pensadores dispostos a enfrentar o fascínio do novo e a refletir sobre o impacto das novas tecnologias em nossas vidas.

Foi importante ouvir Alex Rosenblat, antropóloga, falando sobre sua pesquisa com os motoristas do Uber e suas reflexões sobre os efeitos dos algoritmos sobre as relações de trabalho. Foi essencial escutar Ammy Weeb, futurista, explicando como a privacidade acabou depois que a maioria das relações passaram a ser mediadas por plataformas digitais que dominaram as interações cotidianas. Foi significativo testemunhar Roger McNamee, investidor do Vale do Silício, expondo os danos que o Facebook traz para a fomentação de crises políticas e culturais.

Tudo leva a crer que o próximo ano será mais de reflexão e diálogo sobre os limites da tecnologia do que sobre novidades. E não serei eu o primeiro a recusar esse debate.

Se por acaso minha avó voltar a me perguntar se a diferença entre um laptop e WhatsApp muda alguma coisa na vida dela, já sei a resposta:

– Vó. Isso muda muito a vida de todo mundo. Vou tentar te explicar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.