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Michel Alcoforado

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Cidadania Tech

Michel Alcoforado

29/03/2019 04h00

Em tempos de intensa polarização, briga-se por tudo. Inclusive pelo sentido das palavras. De 2018 para cá, o conceito de cidadão entrou no foco das disputas. Uns defendem a importância do papel do Estado na construção, na regulação e na implementação das garantias do cidadão. Outros nos lembram que a nação só existirá se os cidadãos de bem assumirem o protagonismo. Enquanto isso, as "big techs", empresas de tecnologia globais, preocupadas somente com a sequência eficaz de seus algoritmos, dominam a nossa vida e decidem que tipo de cidadãos nós seremos. Eles acham que sabem o que é melhor para nós.

Durante o SXSW 2019, a cidade de Austin foi tomada por patinetes. Aluguei um para ir a uma palestra. Depois de andar duas quadras, entrei em uma rua com maior movimento. A velocidade automaticamente diminuiu. Por mais que acelerasse, não ganhava força. Recebi uma notificação no celular. A mensagem dizia que, por conta do alto fluxo de pessoas naquela via, o limite de velocidade do veículo foi reduzido.

Dobrei na próxima a direita para cortar caminho. Entrei em uma rua bloqueada. O patinete parou. Recebi outra notificação. Agora, avisando-me que aquela rua estava bloqueada e não poderia transitar por ali. Decidi abandonar o objeto ali mesmo. Ação negada, outra mensagem. Dessa vez, a empresa me avisava que por conta do bloqueio não era permitido deixar o veículo ali. Fui obrigado a empurrá-lo por mais duas quadras.

Rebeca de Moraes, especialista em tendências de comportamento, lembra que situações como essas nos fazem dar conta dos primeiros impactos da Internet das Coisas (IOT). Uma enorme rede de dispositivos conectados entre si por meio de sensores inteligentes que transmitem dados e tem a possibilidade de obedecer aos comandos dos algoritmos e determinar que nos comportemos como os mandamentos da tecnologia. Tudo leva a crer que, cada vez mais, nossos direitos e deveres serão decididos por regras criadas por um pequeno grupo de "tech boys" do Vale do Silício deslumbrados com as potencialidades da tecnologia, mas ignorantes sobre a complexidade de outras trajetórias diferentes das suas. É uma nova forma de participação. É uma cidadania tech.

O conceito de cidadania é construído historicamente. Cada sociedade, em seu tempo, busca definir quais os direitos e os deveres esperados por aqueles que compõem a nação. No século 18, ser cidadão era apenas ter direitos civis. Nos outros 100 anos, conquistamos o direito de participar da política. Já no século 20, os países procuraram definir os direitos sociais e os caminhos pelos quais seus cidadãos podem compartilhar das riquezas das nações. Em todos os momentos, os atores sociais, sobretudo as elites políticas e econômicas, foram chamados continuamente debater sobre as novas camadas da cidadania.

Agora, o jogo mudou. Hoje, a vida social é fortemente influenciada por empresas de tecnologia que negam continuamente o seu imenso papel político e econômico.

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, rede social com mais de 2,2 bilhões de usuários, presente nos 70% dos smartphones com internet no mundo, quando questionado pelos senadores americanos sobre o papel e a regulamentação de sua empresa, com a voz trêmula de um estudante secundarista, esquivou-se. Disse apenas que o Facebook começou como uma empresa idealista e as regras poderiam interromper o ciclo de inovação e desenvolvimento da indústria de tecnologia do país.

Empresas como Google, Facebook, Amazon, Uber, entre outras, estão tão ramificadas, embrenhadas em nossas vidas que já não é mais possível pensar na nossa posição como cidadão sem refletir sobre os efeitos dos algoritmos, dos dados, da inteligência artificial sobre a realidade. Os direitos civis, políticos e sociais conquistados há séculos correm o risco de desaparecer se os "tech boys", os governantes e a sociedade civil não entenderem rápido que as inovações tecnológicas se espalham como o ar. Estão em toda parte, definem o tipo de vida que haverá, mas, sem um controle sobre a qualidade, coloca existência de todos em risco.

É chegado o momento de deixarmos as polarizações e as disputas de lado, cobrar dos governantes que discutamos o papel das "big tech" na invenção do novo mundo. Parece ser só o começo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.

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