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Michel Alcoforado

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O que não te contaram sobre o Tinder

Michel Alcoforado

07/05/2019 15h30

Há cinco anos pesquiso o impacto das plataformas digitais sobre os relacionamentos afetivos. Há séculos os humanos perdem o sono pensando na pessoa amada, mas a maneira como flertam mudou no decorrer da história. Não funcionam mais os lencinhos jogados disfarçadamente sobre os bancos das praças, as piscadelas envergonhadas, as serenatas embaixo das janelas ou os buquês de flores com remetentes desconhecidos. Hoje, o amor surge nas telas smartphones, com dedos indo da esquerda para a direita, dizendo "quero" ou "não quero", "sim" ou "não" para o destino. Não é magia, é tecnologia. A construção de vínculos afetivos a partir da lógica tecnicista dos aplicativos de encontro transformará, em escala, a maneira como nos relacionamos e idealizamos a pessoa amada. Você e seus contratinhos não imaginam o que está em jogo.

O Match Group – grupo que controla empresas como Tinder, Ok, Cupid, Our Time, Par Perfeito, entre outros – já é chamado de "Império do Amor" por causa dos lucros e do alcance mundo afora. Ano passado, o faturamento foi de 1,1 bilhão de dólares. Presentes em mais de 190 países, já formam casais em 42 línguas. O português é uma das apostas da empresa. No Brasil, 1/3 dos encontros amorosos já acontecem por intermédio dos serviços digitais e 70% dos brasileiros já baixaram os apps em seus smartphones. Somos os campeões em downloads, curtidas e matchs na América Latina.

Os executivos do grupo festejam o crescimento, sem pensar nos impactos que a tecnologia terá sobre a maneira como amamos, transamos, odiamos e enfrentamos as dores do fim de um relacionamento. O fato de as plataformas digitais assumirem protagonismo na conexão entre pessoas resulta na transferência da lógica dos apps para as relações humanas.

Os aplicativos são ótimos porque nos ajudam, de maneira rápida e eficaz, sempre que precisamos. Acabam com os momentos de ócio e tédio. Nos dizem o que queremos, quando queremos (antes mesmo de sabermos!) e dão nota para sensações, gostos e experiências – coisas que antigamente só poderíamos avaliar através das palavras e ações. Tudo é determinado pelo pragmatismo dos indivíduos ou pelas leis dos algoritmos. O uso dos apps como regentes das nossas vidas – não como assistentes, como prevíamos –  torna as relações afetivas cada vez mais pragmáticas, fugazes, egoístas e superficiais. Os relacionamentos à moda antiga desaparecerão.

Daqui para frente, viveremos todos em relações betas.  Elas são um protótipo em plena operação.  Cheias de defeitos, parecem esquisitas aos que veem de fora, mas funcionam. Ao se apontar as falhas, surgem as justificativas: "Não é a versão final ainda, é a beta, é transitória. Tem alguns pontos soltos, mas já está em funcionamento para testes". É a brinca, não é a vera.

Nas vezes em que perguntei aos usuários de dating apps sobre o que os motivavam a procurar parceiros por meio dos aplicativos, os relatos reforçavam a necessidade de realizar um desejo afetivo/sexual ou matar o tédio. A vontade de transar ou conhecer alguém diferente ou a dificuldade de suportar momentos ociosos eram o principal motor para os encontros. O novo caminho reforça a visão pragmática da vida, como se, antes de qualquer encontro, precisássemos fazer um cálculo de perdas e ganhos.

A satisfação de um desejo (de transar, se divertir, não ficar sozinho ou entediado) é o motor da relação. Para estar junto, ficam de lado as convenções sociais, só o querer importa. Não há obrigação de mudar o status das redes sociais, fazer juras de amor eterno, levar para almoçar com a família, muito menos se encontrar todo final de semana. As regras são atualizadas e discutidas de maneira que o acordo esteja sempre bom para ambas as partes. Quando gerigonça dá mais trabalho do que prazer, some o interesse, os encontros ficam espaçados e o desejo se esvai. É hora de baixar novamente o aplicativo preferido e partir pra próxima.

Para entrar numa relação beta, o primeiro passo é perder tempo com a construção de um perfil. As fotos escolhidas, a descrição de si, as postagens nas redes sociais precisam dialogar entre si e com o gosto do público que se deseja atingir. Com tanto a decidir, é preciso estabelecer prioridades. Meus entrevistados pontuam que um perfil perfeito precisa ter uma boa selfie para chamar a atenção (59%), fotos de viagens para refletir as experiências de vida (37%) e deixar claro quais são seus hobbies (35%), revelando o estilo de vida e os hábitos cotidianos. Avisam ainda para deixar de fora a posição política (4%) e as fotos com comida e bebidas (2%). Queimam o filme. Feito isso, é preciso acompanhar o número de visualizações, matches, comentários, curtidas e o grau de interesse despertado.

Muito cuidado com as outras redes sociais, em especial, o Instagram. É comum conferirem se a imagem vendida em uma plataforma está alinhada as outras. É preciso capturar a atenção. Se captou, despertou o desejo. E se o interesse é compartilhado pelos dois… deu match!

Começou a conversa. O momento mais difícil para 1/5 das pessoas. O desafio é ter um papo que entretenha, daqueles que nem se percebe que o tempo passou. Uma em cada quatro pessoas desiste se a primeira interação não for boa. Perguntas clichês (onde você mora, como você é, etc), respostas padrão ou monossilábicas fazem da conversa um fardo. Afinal, 46% das pessoas entram nos aplicativos para conhecer alguém interessante. Se não for para encontrar gente legal, eu prefiro ficar em casa, de pijama, assistindo minha maratona de série no Netflix – dizem.

Se o papo der certo, rola um encontro. Não se sabe se é para comemorar ou lamentar. Muita gente acha essa parte mais complicada da relação (30%). Agora é preciso fazer com que toda propaganda calculada com a ajuda das plataformas digitais se torne realidade. É necessário mostrar que se compartilha dos mesmos gostos e preferências (48%), com um sorriso no rosto e uma risada natural (27% buscam simpatia e 21% senso de humor). Se não for para entregar tudo isso – e com naturalidade – nem saia de casa.

Como muitos de nós começaram a amar antes a disseminação dos apps de encontro, é normal que estejamos perdidos entre escolher a estabilidade dos relacionamentos tradicionais e o prazer de uma relação beta. Não é a toa que uma relação perfeita agora precisa ter companheirismo (55%), fidelidade (54%), cumplicidade (42%), compatibilidade sexual (26%), demonstração de afeto (20%) e atenção (10%), sem perder a liberdade e a chance de conhecer gente nova e interessante a todo tempo.

O grande drama enfrentado pelos amantes via celular é fazer com que seus contatinhos se transformem em namorados no estilo tradicional, mas conservem o frescor das relações betas: com as obrigações de uma relação de antigamente mas com o humor, prazer, leveza e simpatia da era digital. Sonhamos todos em construir uma relação que seja beta e tradicional. Só que viver é fazer escolhas e escolher é perder. Se o príncipe encantado já era um mito inalcancável pela perfeição, agora ele  parece com  colagem: é tudo, é nada e, o pior, não existe.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.

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