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Michel Alcoforado

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“Achei que você era branco”

Michel Alcoforado

21/05/2019 14h00

Tenho um podcast e sou comentarista em uma rádio na qual falo sobre novas tecnologias, comportamento, movimentos culturais e inovação. Recebo com frequência elogios. Os ouvintes gostam da maneira como trato de forma leve os assuntos espinhosos. Quando o estúdio passou a contar com câmeras e os bastidores se tornaram visíveis nas redes sociais, os que ouviam viraram telespectadores e foram obrigados a confrontar a própria imaginação com a realidade.

Já haviam me alertado sobre a potência imaginativa que as vozes despertam. Aconteceu primeiro com as damas da era de ouro do rádio, com a moça do alto falante do aeroporto, com as atendentes dos serviços de tele sexo dos anos 90 e, agora, comigo. Há gente surpresa por saber que a minha voz pertence mim mesmo.

 

"Imaginei o Michel completamente diferente. Pensei que era mais clarinho, mas gostei de vê-lo!".

 

"Essa era a imagem que eu tinha do Michel" – disse um ouvinte ao compartilhar um desenho de um hippie, branco, com nariz adunco, cabelos lisos e calça boca de sino.

 

"Nossa… imaginava você completamente diferente. Com cabelos encaracolados, franzino. Achei que você era branco."

 

O descompasso entre o real e o imaginado revelou um padrão de comportamento que permeia as relações sociais no Brasil:  não estamos acostumados a ver negros – ou não brancos – em espaços de protagonismo. E quando vemos, sem saber como agir, inconscientemente, decidimos por embranquecê-los.

A regra é clara: se há uma voz na rádio, é certo que é de um branco. Se as imagens contrariam a lógica social, surge o ruído e, sem nenhum constrangimento, as pessoas se sentem à vontade a compartilhar a surpresa nas redes sociais e cobrar explicações. "Achei que era branco, não era?" – cobra uma fã.

Demorei mais de 30 anos para descobrir que não tenho voz de preto. Sou filho de uma mãe negra e de um pai branco. Nasci em uma família de classe média alta. Frequentei as melhores universidades do país, falo cinco línguas, tenho mestrado e doutorado, moro num bairro de elite, sou empresário, dou palestras e conferências Brasil afora, viajo com frequência ao exterior a trabalho ou a lazer e, por conta de um imenso passado histórico a se corrigir nesse país, ainda sou exceção nos espaços elitizados que frequento.

É certo que minha experiência de vida está longe do sofrimento das mulheres e homens negros, pobres, moradores das periferias brasileiras, mortos ou sacrificados pelos agentes do Estado que, com o ajuda de uma paleta de tons de cor de pele que carregam dentro de si, decidem quem vai ficar vivo ou morto, quantos anos viveremos, quais oportunidades de estudo serão oferecidas, quais hospitais frequentaremos, se teremos saneamento básico, remédios à disposição, oportunidades de trabalho ou lazer.

Este relato busca revelar, sobretudo pelo lugar privilegiado de onde falo, que até mesmo quando negros ascendem e acessam o mundo das elites intelectuais e econômicas, o racismo estrutural se impõe como regra. Não mais como um impeditivo claro, como é comumente imposto aos mais pobres, mas sim como dúvida.

De onde falo, os porteiros já não me sugerem o elevador de serviços, os policiais não me param na rua para me revistar sem razão e os seguranças não me proíbem de entrar nos restaurantes. No entanto, duvida-se de tudo. Especula-se sobre o porquê de tantos carimbos do passaporte, se tenho realmente o direito de estar na fila preferencial, se estou na classe correta no avião, se tenho o cartão certo para estar na sala VIP, se as credenciais para dar determinada palestra são válidas ou se minha própria voz pertence a mim mesmo. Duvidam até mesmo se sou realmente sou negro.

Eu tenho certeza que os leitores brancos, depois das primeiras horas de uma nova amizade, se por acaso falarem da própria branquitude, não terão de provar que o são. Eu preciso. Não raro, repetidas vezes, sou obrigado a lidar com situações nas quais tentam me convencer com veemência de que não sou negro. Eles duvidam. Para provar, sou obrigado a mostrar minha árvore genealógica desde que chegamos ao Brasil. Saco do celular a foto da minha mãe, negra. Da minha avó, negra. Do meu irmão, negro. Dos meus parentes, negros. E mesmo assim, depois de muito insistir, ainda ouço: "Ah, mas você não é. Eu diria que você é árabe". Rebato: "devo ser único caso na humanidade em que branco com negro dá árabe".

Joel Rufino dos Santos, intelectual negro, ao falar sobre a sua situação privilegiada lembrou que "a gente fica numa posição liminar, entre dois mundos". Não sofremos como sofrem os negros pobres, nem gozamos os privilégios dos brancos. A existência de um lugar do entre, sem definição, onde se duvida de tudo, inclusive, da própria negritude, é, por si só, mais uma prova do o racismo estrutural. Nos espaços de protagonismo, aos negros é reservado dois caminhos: ou se deixam embranquecer e passam desapercebidos ou terão de lidar com os ruídos que a própria presença causa quando ocupam espaços majoritariamente brancos.

É assim quando entro numa loja de grife e o vendedor não consegue entender que eu posso comprar uma gravata para presentear um amigo. Acontece quando os atendentes das companhias aéreas me indicam a fila da classe econômica, mesmo quando tenho um bilhete na executiva. Ou ainda, no casamento de amigos, quando os outros convidados se sentem no direito de me ordenar uma bebida, perguntar mais informações sobre o buffet ou me pedir ajuda para que cheguem no banheiro mais próximo.

A dúvida, o questionamento ou o não entendimento sobre a minha identidade ou posição não passam de um eufemismo para uma palavra clara, direta e precisa: racismo. Para que de uma vez os ruídos se dissipem, trago aqui um trecho de uma música de Caetano:

"Eu era o enigma, uma interrogação

A me perguntar: Eu sou neguinha?

Eu sou neguinha!"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.