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Michel Alcoforado

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Não aguento mais polêmicas.

Michel Alcoforado

04/06/2019 16h00

Está duro de acompanhar a quantidade de polêmicas que vem à tona todos os dias no noticiário brasileiro. Não são raras as vezes que tentamos um detox digital e sofremos com seguidas recaídas. E mais, depois de inseridos na confusão, já não sabemos de que lado estamos ou qual a nossa opinião. São os novos tempos.

José de Abreu, figurinha carimbada das novelas Globo, é o centro de uma polêmica que tomou as redes sociais na última semana. Desde quando assumiu o namoro com a maquiadora Carol Junger, o ator tem visto seu relacionamento tomar as manchetes e comentários internet afora. O motivo? A moça tem 22 anos, e ele, 73.

Não me interessa aqui entrar no mérito de certo ou errado, e sim discutir a repercussão. Houve quem apontasse pedofilia no romance, afinal, quando Carol nasceu, o ator já tinha uma carreira sólida e 51 anos bem vividos nas costas. Do outro lado, surgiu o argumento que essa era uma comparação injusta, afinal, a namorada é maior de idade.

Fala-se então em "cultura da pedofilia", a normalização com que a sociedade encara homens que buscam parceiras muito mais jovens. José de Abreu não é único. Recentemente viralizou na internet um gráfico que analisa a vida amorosa do ator hollywoodiano Leonardo diCaprio nos últimos 20 anos. A conclusão é que ele, hoje aos 44, nunca teve uma namorada com mais de 25 anos.

O padrão também não está restrito a determinadas profissões ou aspectos ideológicos. Jair Bolsonaro, alvo preferido de José de Abreu no Twitter, também vive um relacionamento com diferença de idade. O presidente tem 64 anos, sua esposa Michele, 37, uma janela de pouco menos de 30 anos. No caso do ex-presidente Michel Temer, a diferença de idade com a mulher Marcela é ainda maior e ultrapassa os 40 anos, tendo ele 78 e a esposa 36. A ex-primeira dama, aliás, é 10 anos mais jovem que a primogênita de Temer, Maristela.

Não são todos os que condenam esse tipo de relação. Do outro lado do ringue estão os defensores da autonomia da mulher. Afinal, elas são adultas e têm o direito de fazer o que bem entender e se relacionar com que prefiram, tenha a pessoa 10, 20 ou 30 anos a mais. O próprio Abreu se justificou dizendo que a idade não era importante e que a amada não ligava para as críticas.

Nesse redemoinho de argumentos, de qual lado você está?

De tempos em tempos somos arremessados dentro de uma polêmica na internet e nos vemos obrigados a tomar partidos. A situação é ainda mais complexa com a quantidade de prós e contras que surgem de um lado e de outro. De manhã, José de Abreu é pedófilo, de tarde é só um relacionamento, à noite é o reflexo da cultura da pedofilia e de madrugada ninguém mais deve falar sobre isso – afinal a decisão é da parceira.

Bem-vindo à Espiral da Verdade, essa sensação de caos e confusão que destrói as antigas certezas que tínhamos sobre o mundo e dificulta o diálogo na internet. O primeiro que nos acontece ao caírmos na Espiral é sermos bombardeados por conteúdo de todos os lados. Depois, não sabemos em qual fonte acreditar, afinal, todo mundo tem uma opinião a dar: é o que chamamos de polifonia digital. Entrevista no jornal diz que a moça não se importa com críticas. Alguém no Twitter diz que não podemos chamar de pedofilia, ela é maior de idade. Uma página no Instagram condena a esquerda que chama as esposas de Temer e Bolsonaro de cuidadoras de idosos mas passa a mão na cabeça de José de Abreu por ser anti-Bolsonaro. Onde está a verdade? Por fim, somos pressionados a escolher um lado na nova batalha armada nas redes.

E pior: quando finalmente vestimos a camisa de um time e parece que tudo acabou, surge outra polêmica e o processo recomeça do zero. Enquanto você lê este texto, a discussão já pode ser outra. Um exemplo claro é que ninguém mais se lembra da grande polêmica de meses atrás, quando Donata Meirelles, ex-diretora da Vogue Brasil, deu uma festa racista (ou não!) e virou assunto.

Em minhas próximas colunas, vou me aprofundar nesse conceito explicando como a Espiral da Verdade dificulta o diálogo na era da informação. Afinal, se a internet nos dá tantas ferramentas para conversar com o outro, por que parece cada vez mais difícil se relacionar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.

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