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Michel Alcoforado

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Estamos infotoxicados!

Michel Alcoforado

2018-06-20T19:16:00

18/06/2019 16h00

Vim de férias ao Japão e demorei a me acostumar com o fuso de 12 horas. Fora o fator biológico, o maior problema é não estar em dia com as minhas notificações. Assim que abro o celular pela manhã, sou bombardeado com conteúdo que chegou aos montes enquanto eu dormia. Mensagens de amigos, caixa de e-mails lotada, notícias que não param de chegar, atualizações dos meus aplicativos, tudo se acumula. Aqui, tudo virou do avesso.

A quantidade absurda de informação não é exatamente uma novidade. Quando estou no Brasil, meu celular vibra o dia inteiro, avisando as novidades do mundo. Mas, só agora tive a oportunidade de adquirir um certo distanciamento, e foi quando percebi o quanto estava infotoxicado.

Infotoxicação é um estado em que o indivíduo fica tão sobrecarregado de conteúdo que perde a capacidade de assimilar o que chega de novo.  Aqui, do outro lado do mundo, é diferente pois consigo fazer uma curadoria do que quero consumir de informação. Na minha vida "normal", em meio a correria do dia a dia, manter esse filtro é uma tarefa quase impossível. É tanta novidade aparecendo que muitas coisas se perdem.

O brasileiro passa, em média, nove horas e catorze minutos conectado por dia. Não estou longe dessa estatística, mas, para captar toda a informação que me aparece na rede, nem 24 horas bastariam. O estudo "Espiral da Verdade", realizado pelo Consumoteca Lab, mostra que, assim como eu, 78% dos brasileiros consideram-se incapazes de assimilar todo o conteúdo a que estão expostos diariamente. Mais da metade abre as redes sociais logo que acorda e 33% deles posta imediatamente nas redes sociais tudo que acha de interessante.

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na tela do celular, surge ainda o problema para decidir o que é prioridade. Checar os trending topics, passear na timeline, assistir stories, responder mensagem da mãe, limpar a caixa de e-mail do trabalho, acompanhar as últimas notícias do governo… o que fazer primeiro? Dividimos nossa atenção entre várias tarefas secundárias com o mínimo de atenção, absorvendo só o que for extremamente necessário e deixando muita coisa de lado.

O bombardeio de conteúdo é tamanho que acabou por matar até o ócio. Hoje em dia, o momento de pausa passou a ser a hora em que procuramos algo para fazer, de preferência, abrindo as redes sociais. Estamos em uma cultura em que temos mais coisas a realizar, ler, ver, ouvir e descobrir do que temos disponibilidade. E sentimos que estamos perdendo tempo se não nos adequamos a essa estrutura. Não leu suas mensagens assim que acordou? Não escutou o novo podcast no caminho para o trabalho? Não está por dentro da polêmica da vez? Você está perdendo tempo.

Há os que argumentem justamente o contrário, dizendo que passar horas e horas em frente à tela é o que efetivamente rouba o nosso tempo. A saída então, seria se afastar da internet, fazer um detox digital. Dani Arrais, sócia da Contente, em um dos episódios do CaosCast contou que já tempos faz jejum intermitente digital. Isto é, todos os dias, das 22 horas as 10 da manhã, deixa o celular de lado e fica longe das redes sociais. O objetivo da técnica é deixar de usar a rede ou diminuir a frequência por tempo determinado. Tentar é fácil, manter o hábito é que são elas…

Entre os entrevistados na pesquisa, 45% disseram já ter passado pelo processo e outros 31% sentem vontade de experimentar. O principal motivo é "descansar a mente" (37%), seguido de perto por "me concentrar em outras atividades" (34%). Nos últimos lugares estão "me sentir menos dependente de redes sociais e WhatsApp (25%) e "outros" (4%).

Fui introduzido pelas férias em um detox forçado e o resultado não foi bem o que eu esperava. Fiquei melhor por estar mais tranquilo, mas preocupado temo estar desatualizado. Como parte considerável das nossas vidas acontece virtualmente, afastar-se desse ambiente faz com que nos sintamos automaticamente excluídos. Através do celular podemos pedir comida, falar com a família, ler notícias, trabalhar, interagir com amigos, pagar contas, a vida está dentro da tela. Ficar apartado disso tudo é como estar de fora de uma piada interna que parece que todos conhecem, menos você.

Não há remédio para a Infotoxicação. Qualquer solução é apenas como aquelas rodinhas das gaiolas dos hamsters: parecem funcionar, mas não resolve. Inicialmente percebemos que estamos infotoxicados, e então tentamos parar de consumir tanta informação. Em seguida nos damos conta que somos dependentes do digital, e voltamos a consumir mais conteúdo do que somos capazes de absorver.

"É mais fácil parar de fumar do que sair do Twitter", disse um dos entrevistados do estudo. À época, achei a comparação um exagero. Agora que estou longe de casa e um pouco afastado do meu celular, entendo melhor o que ele quis dizer. Vou exemplificar: há poucos dias eu estava turistando em um ryokan tradicional no meio de uma floresta de bamboo no interior do Japão. Mais do que a paisagem,  o que mais me perturbava era saber que por conta da minha abstinência forçada das redes sociais, provavelmente, fui o último a saber das conversas vazadas entre Moro e Dallagnol. Mais um ponto para a infotoxicação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.