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Michel Alcoforado

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Deu ruim? Pais millennials se empenham em criar filhos mortos de cansaço

Michel Alcoforado

24/09/2019 13h03

Passei um final de semana inteiro com minha afilhada de 12 anos.

Milena é a primeira pré-adolescente com quem interajo por mais de duas horas desde quando eu era um. Não tenho e nem quero filhos. Desconheço os best-sellers dos youtubers do momento, as sorveterias de unicórnio com ótimos preços e os próximos lançamentos dos estúdios Disney. Só os pais têm licença poética para falar de personagens coloridos com propriedade sem passar vergonha. Com a missão de enfrentar as horas juntos, pedi dicas a amigos. Fiquei chocado. Os pais millennials andam se esforçando em criar a primeira geração de crianças mortas de cansaço.

Estamos diante de uma geração de pais ansiosos em oferecer aos seus filhos uma educação condizente com a sua visão de mundo. Eles esperam que os mais novos realizem a utopia que imaginaram para suas vidas e, com isso, sejam melhores versões do que não foram. Aqui mora o problema.

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Vale lembrar que millennials são aqueles que nasceram entre 1980 e 1995 e cresceram durante o forte crescimento econômico do Brasil. Eles viram seus pais consolidarem um padrão de vida, em geral, melhor do que o dos avós. Consequentemente, estudaram mais, assumiram o risco de terem uma trajetória profissional nova, questionaram a posse de carros ou apartamentos, lambuzaram-se no canto de sereia da economia colaborativa, fruto da forte expansão da internet e das plataformas digitais. Pais millennials se sentaram nas cadeiras das grandes corporações e questionaram a hierarquia, a forma de trabalho e o layout das baias. Pediram mesas de pinball, espaços colaborativos, zonas de descompressão e empresas com missão, legado e impacto positivo. E desafiaram o que todos pensavam sobre trabalho, consumo, família, alimentação, sexo e educação.

No curso de tantas transformações, os millennials inventaram um mundo no qual eles próprios não se encaixam. E, como não deram conta da completa reinvenção nessa encarnação, estão empenhados em fazer com que os filhos cumpram a promessa da sua geração. Vai dar ruim!

A começar pelo fim do tédio. As crianças, ao contrário das outras gerações, não ficam mais jogadas num canto, afastadas das conversas dos adultos, brincando entre si e imaginando um mundo mais divertido do que o real. Agora, acredita-se que é mais seguro manter os filhos perto de si com um celular na mão preso no jogo do momento, devidamente monitorados, do que correndo suados de um lado a outro, no playground do prédio, que, aliás, viraram brinquedotecas.

Não há mais janelas de tempo livre. Se estão de férias, então, é um desespero. Compram-se guia de pacotes de programas infantis nas bancas de jornal. Os sites com programação infantil são atualizados o tempo todo. As escolas inventam colônias de férias a preços exorbitantes para lucrarem às custas do desespero dos pais. Todos sofrem para manter os filhos ocupados.

Em São Paulo, crianças de 7 a 17 anos já podem descobrir "a arte de aprender de forma prática e lúdica, para que (…) consigam desenvolver e realizar seus sonhos de forma criativa e inovadora" – diz o site da escola de cursos extracurriculares MBA Kids. Com uma metodologia nova e fundadores com anos no mundo corporativo, o programa promete formar empreendedores 4.0 com visão de negócios, liderança, de tomada de decisão, educação financeira e gerenciamento de tempo.

Sem tédio, sem tempo e com horas de aula de gestão financeira no horário em que eu vi Pokémon na TV Manchete, as novas crianças sofrem com as frustrações cotidianas. Mas, para isso, pais millennials se valem do que aprendem nos livros de autoajuda, nos aplicativos de meditação e nas sessões de terapia alternativa para educar os filhos. E, quando não conseguem resolver os dilemas da criação, contam sempre com uma gama de novos profissionais. Vai de terapia com músicas de Chico Buarque para diminuir a ansiedade até a novidade do momento: os kidcoaches. Isso mesmo!

As fórmulas de sucesso, a busca por propósito, paixão e felicidade deixaram as sessões de best-seller das livrarias e chegaram ao parquinho. Os kidcoaches, com as ferramentas do momento, trabalham com crianças a partir de dois anos, que são consideradas tristes, tímidas, com poucos amigos, agressivas ou sem planos para o futuro. O que antes era normal agora é doença.

Para fugir dessa loucura, cortei o roteiro sugerido pela metade. Pincei o Museu da Imaginação na lista. O museu, lotado de pais millennials, conta com duas exposições temporárias sobre grandes personalidades: uma do Monet e outra do Da Vinci. A primeira sala foi pensada pela artista plástica Coca Rodriguez Coelho e propunha um mergulho no universo de Monet. Entramos. Era uma sala escura, banhada com luz negra e azul, com pedaços de espuma por todo o canto, e crianças correndo de um lado a outro. Normal. Mas a todo tempo, os pais capturavam seus filhos para o sermão:

"É Monet, fiiiiilho. É arte, fiiilho. Sabe quem foi Monet, fiiiiiilho?", repetiam para crianças ofegantes nada interessadas.

Do outro lado, havia a sala de Leonardo da Vinci reunia pais preocupados em explicar o funcionamento do sistema de roldana inventado séculos atrás para crianças de três anos.

Desesperado com as experiências de paternidade millennial e certo de que crianças não podem ser tratadas como máquinas de aprendizado, fugi com Milena para a lanchonete mais próxima.

Ela pediu um hambúrguer, batatas fritas, um sorvete com calda e confetes. Esticamos as pernas no sofá confortável, tomamos baldes de refrigerantes e conversamos. Até que ela me disse que fazia tempo que não comia não-orgânicos.

"É pra isso que servem os dias de folga", respondi.

Não fizemos nada o resto do final de semana.

Nem tudo está perdido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.