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A desigualdade no Brasil: como construímos nossos muros?

Michel Alcoforado

09/01/2020 04h00

É só chegar o final do ano que começamos a fazer um balanço sobre a vida. Sobretudo quando se pensa nas conquistas do ano que passou, o plano de metas para os próximos e a dezenas de presentes que se que comprar para presentear, com carinho, àqueles mais próximos. É nessa hora que se pensa: "Ahhh, se eu fosse rico…"

Venho pesquisando os ricos brasileiros há muitos anos e posso afirmar que, por aqui, nem os ricos se sentem ricos. Certa vez, durante a pesquisa de campo, em um happy hour com um grupo de milionárias do Rio, de São Paulo, em Curitiba em Miami, perguntei se elas de fato se sentiam ricas:

– Então, meninas… Eu falava aqui com Thereza agora há pouco. Vocês acham que são ricas?

– Ricas? Nós? Que é isso? (muitos risos)

– Eu fico pensando: com os gastos que vocês têm há de se ter muito dinheiro para bancar isso tudo, né? Vocês acham que são ricas?

– Ricas, ricas, ricas, não. (mais risos)

– Olha isso, Carmen. Ele acha que a gente é rica. (mais risos)

– Não. A gente não é riiiiicaaa. A gente tem um bom padrão de vida. Uma vida confortável. Rica é a Zê. Vou te apresentar ela. Agora, tem muita gente aí que se acha rica e não é. Se acham ricos, mas não são.

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 O rico é sempre "o Outro". Pode ser um amigo, um conhecido ou um familiar. É certo que isso se deve à crença no valor atribuído à humildade na sociedade brasileira e um claro desprezo à uma vaidade excessiva, sentimento socialmente reprovável. Mas também foi interessante perceber que de fato alguns entrevistados não sabiam apontar claramente o que definiria alguém ser classificado como rico.

Ao contrário da visão que tinham sobre as elites, os ricos eram pessoas próximas e faziam parte dos seus círculos de relações. Falava-se em dinheiro, em bolsas, em viagens, em tempo disponível, sobrenomes famosos, carros importados, sapatos assinados, amigos, tratamentos estéticos, hotéis de luxo, salas VIPs etc. No Brasil, há uma maleabilidade maior na classificação se alguém é rico ou não. O que pode ser visto como rico em um determinado contexto pode não ser em outro. Esse é o dilema brasileiro. Tudo depende do contexto, de quem são os atores envolvidos e do que está em jogo.

No entanto, há um fato que chama atenção no Brasil. Nós classificamos pessoas a partir do dinheiro e das coisas de rico.

  

Comecemos pelo primeiro grupo. Do ponto de vista dos ricos com quem conversei durante a pesquisa, os pobres constituem grande parte da população brasileira. São aqueles que, do ponto de vista das elites, não possuem nem dinheiro, nem acesso às coisas de rico. Vivem com o básico, nas periferias das cidades e preocupados em equilibrar seus salários para dar conta das despesas mensais. A categoria também pode englobar aqueles que eram ricos, mas por conta de negócios malsucedidos ou roubos, perderam o dinheiro e as coisas.

Os mão de vaca possuem dinheiro mas, pelos mais variados motivos, não se preocupam em gastar sua fortuna com nada além do básico. Esse é um dos maiores xingamentos que pode ser dirigido a alguém. A única posse que lhes interessa é a do próprio dinheiro. São criticados e mal vistos.

Os metidos à besta, os que se acham, são aqueles indivíduos que concretizam em seu estilo de vida um descompasso entre dois sistemas fundamentais aos processos de hierarquização e diferenciação entre os ricos: de um lado, possuem as coisas de rico que permite a eles performar uma identidade desejada e exibir bom gosto; todavia, de outro modo, não possuem as condições financeiras necessárias para tal. Se uma pessoa não faz isso, essa não é rica, é uma metida à besta. Ela possui as coisas de rico, mas teoricamente não possui o dinheiro para adquiri-las. Por isso, se endivida.

Ser metido à besta é uma acusação que atinge a identidade dos indivíduos, os falidos não. É o que chamamos de uma acusação parcial, "porque ficam no nível de segmentos ou aspectos particulares do comportamento enquanto existem outras que contaminam toda a vida dos indivíduos acusados, estigmatizando-os de forma talvez definitiva". (Velho, 2004; 59) Isso fica ainda mais claro nos usos das duas categorias. O verbo que conjuga a primeira categoria é o ser, já o da segunda é o estar. Os indivíduos são metidos à besta, mas estão falidos e podem deixar de estar a qualquer momento. Os metidos à besta são assim desde sempre, na infância já mostravam tal comportamento, que se complexificou ao longo da vida. Os falidos, não.

Esses contratam especialistas capazes de devolver uma vida de conforto que outrora usufruíram. Advogados ajudam aos falidos a recuperarem o dinheiro que perderam para reaver, novamente, a vida de conforto – mesmo após a separação ou a partilha de uma herança.

Por fim, há aqueles que conseguem alinhar o dinheiro à posse de coisas. Eles não tem vergonha de dizer que tem uma vida boa, com conforto. Ter uma vida com conforto é ter dinheiro para não se preocupar e coisas que te permitam viver da melhor maneira possível. Esse são os ricos que todos acham que são, mas jamais se assumirão.

É importante que tenhamos essa discussão porque isso demonstra o jeito brasileiro de se pensar estratificação social, muito diferente das separações estanques dos demógrafos ou das classificações secas das pirâmides de renda. É preciso que levemos sempre em conta as teorias nativas na construção dos modelos teóricos. Caso contrário, eles não funcionarão. 

Afinal, rico por aqui não é quem faz parte do 1% do PIB, mas todo mundo que tem uma vida boa, com conforto. 

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.