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São Paulo: no seu aniversário, eu te desejo muito diálogo!

Michel Alcoforado

25/01/2020 04h00

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

Eu me apaixonei por São Paulo muito antes de colocar os pés por aqui. Eu morava em Vancouver, no Canadá, e numa viagem rápida a Toronto ouvi, em um grupo de amigos, uma brasileira dizer:

"Eita, que cidade mais sem graça. Parece São Paulo!"

Na mesma hora, falei: Se São Paulo é assim… Um dia, quando eu voltar pro Brasil, quero morar lá.

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Era melhor não ter dito nada. Não demorou muito, paulistanos de todos os tipos (coxinhas, petralhas, manos, rolezeiros, faria limers e cia) começaram a brigar.

"Você não sabe do que está falando. São Paulo é péssima. É máquina de moer gente. Todo mundo quer sair de lá. Não fale bem do que você não sabe."

 

Do outro lado, outro grupo se uniu em defesa da cidade.

Se São Paulo era bom ou ruim, até então eu não tinha como saber. Mas, uma coisa é certa: essa é uma cidade onde os habitantes disputam versões sobre o que a metrópole é, sobre o que se pode ou não, o que é certo ou errado a todo tempo. Aqui, é sempre fácil definir o que a cidade é porque estamos sempre diante de uma guerra na qual todos se acham soldados de suas visões de mundo e definições. São Paulo é uma arena de disputa de versões si mesma.

Desse jeito, fica difícil até mesmo acreditar em pesquisa de opinião. Ainda essa semana, a Rede Nossa São Paulo, organização sem fins lucrativos voltada às questões da metrópole paulistana, divulgou dados que impressionam. 

 

  • 60% dos paulistanos afirmaram que, se pudessem, sairiam da cidade
  • 41% sentem pouco orgulho de morar aqui
  • 20% não sentem nenhum orgulho

 

E por aí vai. Ninguém parece gostar daqui. 

Eu não acredito.

Desconfio de qualquer pesquisa sobre São Paulo não pela qualidade das metodologias aplicadas ou da reputação dos institutos de investigação.

Porém, em um lugar onde a disputa de versões é a regra, os paulistanos mudam de opinião de acordo com os movimentos. O que achávamos na semana passada, deixamos de achar hoje. Quem não lembra de gente que foi contra o fechamento da Avenida Paulista no passado, e que de uma hora pra outra, ficou a favor e se diverte ali nos finais de semana. Quem tinha ojeriza às bicicletas já engarrafa as ciclovias da Av.Faria Lima. E aqueles que acharam que o centro da cidade era uma terra abandonada curtem iguarias nos restaurantes estrelados, a céu aberto, nos finais de semana.

Richard Morse, sociólogo inglês, morou por aqui nos anos 1950, escreveu um livro sobre as grandes cidades do mundo em desenvolvimento. São Paulo foi o foco. Para Morse, as cidades periféricas são arenas culturais. São lugares de germinação, de experimentação e combate cultural.

Isto é, por aqui, os focos de criatividade e recriação de hábitos e modos de vida estão por toda parte. A cidade muda continuamente seus centros nervosos, reinventa bairros, segue outros rumos. Nós, moradores, estamos sempre dispostos a experimentar o novo.  Por aqui, o que é novo fica velho rápido. Já nasce ruína. Restaurantes abrem e fecham todos os dias, os must see mudam numa velocidade frenética e ficamos sempre com a sensação de que falta tempo para dar conta de tudo que é preciso conhecer. 

No entanto, aqui também vivemos embates culturais. Visões de mundo muito diferentes, juntas, numa cidade de milhões de habitantes, disputam o real significado do espaço urbano. Discute-se, discorda-se, manda-se o vizinho para Cuba ou bater panela em Miami. O conflito de opiniões é da base das nossas relações. Deve ser por isso que, para muitos, é duro viver aqui.

Hoje, a prefeitura de São Paulo anunciou que não fechará o fluxo de carros na Avenida Paulista no dia do aniversário. O trânsito seguirá normalmente. Os motivos apresentados pelas autoridades são muitos: há atividades em várias partes da cidade e, por isso, os moradores terão que se locomover. Outros dizem que a razão fundamental é porque houve uma arrastão no último domingo e a Polícia Militar não conseguirá garantir a segurança do local. 

O Sesi, centro cultural importante da avenida, cancelou as apresentações da Orquestra Bacchiana. Os movimentos sociais reclamam que a cidade é das pessoas, não dos carros, e que isso precisava ser lembrado no aniversário. 

Há gente contra, gente a favor. É sempre assim.

Diante de tal carma, digo: São Paulo, ao invés de saúde, muitos anos de vida, dinheiro e sucesso, no seu aniversário, eu te desejo outra coisa: muito diálogo. 

Só assim vai ser possível ser grande como você foi feita para ser.

Estamos juntos!

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.