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5 coisas que eu aprendi sobre coronavírus até ficar preso na Índia

Michel Alcoforado

14/03/2020 04h00

Li Bruno Latour ainda na faculdade, anos atrás, mas precisei chegar a Índia de 2020 para entender porque "jamais fomos modernos". Aviso aos navegantes: não foram as vacas espalhadas pelas ruas, o trânsito caótico, templos por todos os lados, muitos menos os sadouhs, os gurus e os iôguis a pedir dinheiro que me impressionaram. Essas coisas existem por aqui há milênios e não chocam mais a ninguém.

Foi o coronavírus, a nova celebridade do momento, que me fez entender que a promessa da modernidade não se concretizou.

Isso porque o mundo está dominado pelos híbridos. A covid-19 é um deles. Os híbridos são fatos, problemas e processos tão complexos que fogem a qualquer classificação. Eles cobram dos atores sociais diálogo, diplomacia e interconexão de saberes para que sejam compreendidos. Só assim se tornam inteligíveis. Caso contrário, dá merda. Desde que deixei o Brasil numa volta ao mundo para pesquisar a relação de diferentes culturas com a falta de tempo, é isso que tenho visto. Falta entendimento de que esse problema não é como os outros.

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Parti para Tel-Aviv na tarde de 11 de fevereiro, dia em que a Organização Mundial da Saúde deu nome à doença do novo vírus: covid-19. Fiz conexão em Roma e o cenário era de caos. Àquela altura, os casos não eram muitos e se concentravam no Norte do país. No entanto, a agente de segurança do aeroporto de Fiumicino agia como se já soubesse da pandemia. Tinha um fichário de perguntas: quando foi a última visita a Europa? Ficou quanto tempo? Vai ficar mais quanto? Veio fazer o quê? Não… Você esteve na Coreia do Sul? Prove que foi antes do surto? Israel já sabe que vão te receber? Quantas horas você vai ficar aqui em Roma? É só Roma mesmo? Prove! Vamos checar sua temperatura, ok? Tudo certo! Pode ir! Fui liberado.

Ali comecei a aprender a primeira das cinco coisas que o novo coronavírus me ensinaria, até ficar preso na Índia.

Primeira lição:

Fenômenos híbridos são tão complexos que ninguém consegue lê-los por completo. Cada um tem um pedaço da informação o que torna quase impossível qualquer diagnóstico. Não temos ferramentas para compreendê-los. Eles são emaranhados de interconexões ininteligíveis. Eles fogem de qualquer classificação feita com parâmetros antigos. Na presença deles, sempre temos informações pela metade e, por consequência, somos obrigados a tomar decisões, fazer planos, seguir pisando em terrenos movediços.

O coronavírus não foi tratado desde o príncipio como um híbrido; também por isso, fugiu pelo dedos das autoridades competentes. O oftalmologista chinês Li Wenliang, de Wuhan, que deu o primeiro alerta sobre a presença de um vírus estranho no país, foi tachado de louco e acusado de espalhar fake news quando constatou sua presença. As autoridades, com velhos métodos, não conseguiram identificar o híbrido que Wenliang tinha detectado.

O mesmo aconteceu com a Itália. Todo o processo de cuidado das fronteiras estava focado em pacientes já com sintomas ou vindos da China. Especula-se que o foco de disseminação da doença no país foram os europeus contaminados dentro da fronteiras da União Europeia que, apesar de não apresentarem sintomas, estavam propensos à contaminação.

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Em Tel-Aviv, o clima era outro. Só queriam saber se eu havia estado em um dos "problem-countries" (China, Japão, Coreia do Sul e Irã, naquele momento) nos últimos 14 dias. Neguei e entrei no país. Na capital israelense, o humor israelense dominava. Todos queriam saber se eu estava sozinho ou acompanhado do "corona". Ríamos juntos.

Ainda me lembro, quando num bar no centro da cidade, eu e um companheiro de balcão, artista, judeu marroquino, com residência em Israel e em Nova York, vimos na televisão a Comissão Europeia anunciar o investimento de 230 milhões de euros na luta contra a covid-19. O Centro Europeu de Prevenção pedia à OMS uma reavaliação dos riscos.

O diretor-geral, naquela ocasião, apenas afirmou que o mundo precisava se preparar para uma eventual pandemia, até porque chamava muito a atenção o crescimento vertiginoso de casos na Itália, na Coreia do Sul e no Irã – onde dois parlamentares, ou seja, autoridades, morreram por conta da doença.

Segunda lição:

Na globalização, o circuito dos híbridos (pessoas, mercadorias e informações) deixa, de igual modo, todos vulneráveis. Eles não respeitam hierarquias, gente com cargo, conta bancária rechonchuda ou roupas de grife. Eles são móveis, invisíveis, entram no nosso corpo sem pedir licença, se instalam e vão passando de hospedeiro em hospedeiro pelo que nós temos de comum, a natureza humana.

Afinal, quando você imaginaria que um casamento de bacanas numa praia paradisíaca da Bahia, com blogueiras instagramáveis e com a vida perfeita, seria foco importante de difusão da doença? Ou mais, em que momento você imaginaria que o secretário de Comunicação da Presidência, já atestado com o novo coronavírus, poderia ter infectado o presidente da República do Brasil e do Estados Unidos? Onde estava general Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, que não protegeu o presidente?
Os híbridos, como o coronavírus, fogem às velhas formas de classificação de suspeição. Afinal, como vigiar, punir e controlar o perigo se todos são suspeitos, o inimigo é invisível e o culpado pela transmissão (o doente) também é vítima? Bagunça geral!

***
Saí de Israel com destino a Bangalore, na Índia. Carregava minha máscara N-95 ainda dentro da embalagem lacrada. Apesar de, com mais de 1 bilhão de pessoas vivendo na Índia, não haver mais que 15 casos naquele momento, a paranoia estava instalada. Pelo wi-fi do avião vi, pouco a pouco, meus entrevistados cancelarem nossas reuniões. E diziam: don't come to India, Sir! Don't come to India! It's gonna be terrible soon.

Não tinha como voltar no meio do caminho. Um executivo do maior jornal de língua inglesa do mundo, o Indian Times, me escreveu no WhastApp.

"Michel, você deve está sabendo do surto de coronavírus, especialmente em Nova Délhi. Eu fico triste de lembrar, mas talvez não seja uma boa ideia pra nós e pra você que nos encontremos por agora. Eu peço mil desculpas por isso. Contudo, fico muito feliz e aberto para que nos falemos por telefone. Me avise quando estiver por Delhi."

Desci do avião e recebi oito formulários da imigração para preencher. Os oficiais que, em geral, dão pouca importância para os papéis que eles mesmos pedem, estavam tensos. Queriam entender em detalhes o número do voo, a poltrona em que sentei, se estava sozinho e se estava na temperatura certa.
Ainda na fila, por conta do perfume forte de alguns locais e da minha alergia mal curada, tive vontade de espirrar. Na mesma hora, pensei: "Se espirrar aqui, fudeu, Vão me colocar de quarentena". A paranoia era grande na fila.

Na outra manhã, um entrevistado cancelou o campo. O workshop de que eu participaria abriu uma enquete para saber se valia a pena manter o evento. Indianos de toda parte começaram a me enviar mensagens para evitar o uso de Tuk Tuks, o contato com pessoas e grande aglomerações. Como se fosse possível garantir essa promessa num dos países mais populosos do mundo.

Conversei com uma amiga brasileira que mora na cidade de Shenzhen, na China, sobre como andavam as coisas por lá. Para todas as perguntas que eu fazia, ela dizia: olha, a gente não sabe. É difícil prever.
No entanto, o que mais me chocou nos relatos da Carla e no que vejo por aqui é o senso de comunidade e cidadania que o coronavírus cobra das pessoas. Ainda ontem, vi um garçom contar, com os olhos cheios d'água, sobre um cliente chinês que soube que a mãe fora infectada, mas não pode ir vê-la, mesmo sabendo da gravidade do caso.

A covid-19 derruba muros e ergue pontes.

Na China, a quarentena imposta pelo governo deixou muita gente sem trabalhar por lá. Em um momento no qual todo mundo tá preocupado com tosse, febre e dor de cabeça, pensar em dinheiro pode ser uma infantilidade. Mas, não é.

Com o lockdown do país e o fechamento das empresas, muitas empresas não estão conseguindo pagar seus funcionários. Afinal, todos estão em casa: produtores, trabalhadores e consumidores. O capitalismo e sua lógica financeira está suspenso. No entanto, os boletos não param de chegar. Carla explicou que o governo chinês está incentivando acertos não financeiros entre os cidadãos.

Os prédios não estão cobrando o condomínio dos moradores, já sabendo que muitos não terão condições de quitar suas dívidas. As empresas estão pagando o quanto podem e quando podem aos seus funcionários. Os donos de imóveis estão renegociando o contrato de aluguel com os inquilinos. Os aumentos foram suspensos, novos acordos feitos e os prazos mudaram. São compromissos didádicos, entre pessoas, a partir do entendimento do contexto e do entendimento da situação do outro, independentemente da intervenção do Estado, do mercado ou de outros entes.

Terceira lição:

Com os híbridos, as velhas oposições se desfazem e a tal da necessidade de se colocar no lugar dos outros ganha espaço. Se patrões, empregados e consumidores estão presos dentro de casa, os papéis se embaralham. Quem está certo e quem está errado? E as taxas dos condomínios? É certo que precisam ser pagas, mas se nenhum dos condôminos tem salário, como pagar? São eles devedores? Simmel, sociólogo alemão, escreveu que o dinheiro na modernidade foi responsável por mediar e impessoalizar as relações entre as pessoas. Afinal, com dinheiro, pouco importa se o apartamento que você aluga ou o salário que você paga é para o Pedro, para o João ou para a Maria. Agora, sem dinheiro e com uma das piores crise econômicas à vista, estamos sendo obrigados a nos conectar e entender as necessidades dos outros. O coronavírus nos coloca no mesmo barco e nos obriga a remar juntos.

***
A confusão não para por aí. Saio do hotel, há um exemplar dos três principais jornais do país. No restaurante onde é servido o café da manhã, todos os estrangeiros se aventuram a desvendar quais os passos dados pelo governo. Acompanhamos juntos o crescimento dos casos no país, os novos protocolos, as novas medidas de prevenção para decidirmos que vamos fazer. Os garçons riem de nós. Eles dizem que o governo não tem condições de estimar o número de infectados. Os números não são reais e emendam: "This is India, Sir".

Abro o celular e há anúncios de gurus sugerindo cura. "This is India, Sir."
Um jovem indiano que cuida da empresa de exportação dos pais aqui em Mumbai me falou que o fechamento das fronteiras impactou fortemente seus negócios. A economia indiano já patina e bolsa também não para de cair.

Donald Trump decide fechar as fronteiras dos Estados Unidos para passageiros vindos da Europa, com exceção da Reino Unido. Nesse exato momento, penso se tal decisão não tem relação com o Brexit e todo movimento contra globalização. A pergunta que fica é: é uma pandemia de um vírus, é um caso de saúde pública? É um problema econômico? Ou político?

Quarta Lição:

A OMS, para além da pandemia, tratou da infomania. isto é, junto com contaminação pela covid-19, estamos diante de uma enxurrada de notícias que corre o risco de nos deixar mentalmente doentes.
Diante de tantas mudanças, como nos informamos? Qual é o melhor caminho a seguir? Em outros tempos diríamos que o melhor caminho é se informar, acompanhar as orientações estatais e cumprir os protocolos ou seguir os conselhos dos políticos no twitter. Hoje, ninguém sabe. Alguém saberá?

É importante lembrar que, em tempo de híbridos, nenhum ator sozinho será capaz de dar conta de explicar a complexidade do que se está vivendo. Tal fato gera um ciclo vicioso perigoso: de um lado, estamos sedentos por novas informações que nos deem uma visão mais ampla e geral do problema. E do outro, qualquer um acha que pode falar sobre qualquer coisa e influenciar comportamentos.

É hora de a ciência, o Estado e os intelectuais assumirem seu papel de protagonistas no entendimento das questões do nosso tempo. Caso contrário, ficaremos todos perdidos: afinal, é uma pandemia ou uma paranoia propagada pela imprensa, como diz o presidente da República? Podemos acreditar nas tabelas com os índices de mortalidade dos grupos de WhatsApp ou é melhor ouvir os médicos populares dizerem que é só uma gripe? A queda do preço do petróleo é culpa do coronavírus ou da crise mundial que já se anunciava? Paulo Guedes tem razão?

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Há dois dias, acordei com com a notícia de que o Ministério da Saúde da Índia havia fechado as fronteiras para todos os estrangeiros até o dia 15 de abril. Fica permitida a apenas a saída dos estrangeiros.

No entanto, esqueceram de pensar que é economicamente inviável para companhias aéreas chegar ao país com os assentos desocupados para decolar com um punhado de passageiros. Enfim, os voos vão rareando, não se sabe quando vamos embora e nem como. Resultado: estou preso na Índia até a segunda ordem.

Ninguém faz ideia de nada: os recepcionistas dos hotéis não têm muito o que dizer, as companhias aéreas não têm resposta e o governo também não tem a menor noção sobre o impacto das suas medidas sobre o controle da disseminação. Estamos todos só a agir sobre o presente para evitar o caos maior.

Tudo foi decidido de uma hora pra outra. A Índia só não tem mais de 80 casos do coronavírus por aqui. No entanto, tomou medidas drásticas para tentar controlar o avanço exponencial da doença depois de avaliarem a potencialidade de disseminação do vírus, sobretudo por conta das condições sócio-econômicas do país.

A Índia é o segundo país mais populoso do mundo. São 1,5 bilhão de pessoas. Boa parte da população ainda vive em vilas rurais sem qualquer acesso a saneamento básico, água corrente ou cuidados higiênicos comuns a boa parte dos países do Ocidente. Enfim, os vídeos de YouTube ensinando a lavar as mãos com muito sabão por mais de 20 segundos não terão nenhum efeito por aqui.

Fora isso, a população urbana vive em cidades superpopulosas. Enfrentam transportes públicos tão cheios e precários que não há como evitar o contato físico entre os passageiros que precisam viajar horas a fio para conseguir chegar aos postos de trabalho.

Não podemos também esquecer o caráter gregário da cultura indiana. As famílias têm um papel decisivo na construção do caráter dos indivíduos. E é mais do que comum que várias gerações de uma mesma família compartilhem o mesmo espaço. É o que eles chamam de "join family". Nesse modelo, os avós, os filhos já casados e os netos com seus parceiros vivem todos juntos e compartilham dos espaços comuns da casa até a hora de dormir. Seja vendo TV, jogando cartas ou compartilhando uma refeição. Gerações muitos diferentes coabitando, com acesso, em diferentes medidas, ao espaço público e às multidões, colocarão certamente em risco a saúde dos mais velhos — público no qual se observam as maiores taxas de mortalidade.

E por fim, na Índia, até hoje, faz parte da etiqueta o fato de cada indivíduo compartilhar a comida com os outros a mesa e o normal é se alimentar com as mãos, sem garfo ou faca. Colocando a mão no prato do vizinho e levando à boca, a chance de transmissão do vírus é ainda maior.

Desse jeito, até eu que achava que tudo não passava de uma paranoia já começo a achar que os indianos estão certos. Quando não se sabe como lidar com o problema comum, lidar levando em consideração as suas especificidades culturais pode ser o melhor caminho. Nem que, por isso, você acabe com os planos dos outros.

Quinta Lição:

Os híbridos por serem tão complexos, imprevisíveis e não adaptáveis aos velhos padrões, fazem do futuro um jogo tão aberto no qual todos nós não sabemos o que será do amanhã. Tensos com um presente que muda a cada segundo e sem chance de fazer planos porque não há futuro, eles nos cobram que abandonemos todas as âncoras para surfarmos de acordo com as marés. Haja estômago!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.