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Por que Bolsonaro acha que a covid-19 é uma gripezinha?

Michel Alcoforado

30/03/2020 09h55

Cheguei ao Brasil no sábado (21), depois de enfrentar uma batalha homérica. Na Índia desde fevereiro, vi as autoridades tratarem a pandemia como uma ameaça. Aqui, no aeroporto de Guarulhos, nenhuma triagem, checagem de temperatura ou pergunta. Estava no país da gripezinha.

Há semanas, Jair Bolsonaro se vale do cargo para ser ouvido. Discursa com deboche sobre o vírus que matou milhares de pessoas, tirou a liberdade de bilhões em quarentena e enlouqueceu executivos de empresas trilhardárias. Para o presidente, tudo não passa de um resfriadinho, de uma gripezinha. 

Ninguém duvida que as limitações intelectuais e cognitivas do capitão contribuem para a confusão. É certo que Bolsonaro chegou à presidência pelos compromissos feitos, que precisam ser cumpridos com o empresariado, apesar da emergência sanitária. Não podemos esquecer também os radicais que o apoiam, desconfiam da ciência, do bom senso e da civilidade. O quadro já é de tempestade perfeita, mas não explicam tudo. Afinal, Bolsonaro não está sozinho. Há muita gente na mesma toada. Mas, por quê?

A resposta simples: Bolsonaro é um típico baby boomer.

Em uma pesquisa recente, o Instituto Datafolha mostrou que os idosos brasileiros são os mais reticentes ao entendimento da gravidade da pandemia e a adesão à quarentena. Nas redes sociais,  no Brasil e no mundo, não param de surgir vídeos mostrando as ruas vazias, mas repletas de idosos por todo lado. Seja na padaria, no supermercados, nas praças ou só dando uma voltinha para respirar.

Não adianta os especialistas irem aos meios de comunicação provar que a virose do momento mata os mais velhos e os mais doentes. Muito menos o apelo dos filhos preocupados com a saúde dos pais. Esses, eles já não ouvem há muito tempo. A questão é mais séria. 

Estamos diante de um dilema geracional que leva a uma contradição: o grupo etário com mais chances de morrer minimiza o tamanho do problema ou leva a vida normalmente. 

Bolsonaro é um baby boomer. Como tantos outros, nasceu entre os anos 40 e 60 do século passado.  Cresceu num mundo otimista do pós-guerra, viu os avanços da medicina, os saltos tecnológicos e o crescimento da renda e do consumo. Já era um outsider quando outros jovens viviam a contracultura, a liberdade e revolução dos costumes dos anos 60. Seja junto ou separado, Bolsonaro presenciou as mesmas transformações históricas da sua geração. Por isso, apesar das diferenças individuais, é possível identificar um padrão de comportamento deles em relação a covid-19.

Vou me deter a três pilares de resistência do mindset baby boomer. São eles: a vida é feita de fases, portanto, morrer na idade de morrer não é um problema, "faz parte" como diz o presidente; os entraves no uso da tecnologia, sobretudo em um momento no qual as plataformas digitais são a única saída para a vida;  e a não-obrigação do cuidado dos outros, já que na velhice, com os filhos crescidos, os maiores desafios são voltados para o cuidado de si.

A vida é feita de fases

A vida é um intervalo entre o nascimento e a morte. Cada geração imagina uma jornada específica de conquistas e resoluções para si. Os baby boomers veem o desenrolar da vida de uma forma rígida.  É uma sucessão de fases, cada qual com direitos, deveres e atribuições específicas. 

Lembro de uma conversa que tive com meu pai, um típico baby boomer, anos atrás. Em um almoço de domingo, quando falávamos da doença de uma pessoa próxima, me disse:

– Meu filho, a vida é assim. Não tem jeito. A gente nasce duro e estuda. Ganha dinheiro e faz o quê? Casa! Então, fica duro de novo. Melhora um pouquinho. Faz o quê? Tem filhos! Aí, outra guerra de novo. Fica duro. Os filhos crescem e ficam independentes. Não precisam mais da gente. Voltamos a ter dinheiro de novo. Mas, aí, a gente se aposenta, fica duro de novo e morre.

Os baby boomers têm uma perceção rígida sobre o desenrolar da vida. Para eles, a jornada é vista como uma sucessão de fases que precisam ser cumpridas com direitos, deveres e atribuições específicas tanto na conquista dos objetivos quanto na aceitação da hora de morrer. Chamo isso de vida de "tem que". E adianto, isso é ainda mais forte entre os homens.

Não por acaso, semanas atrás, vi um meme com uma daquelas camisas que foram moda entre os homens baby boomers nos anos 1990. A peça faz um paralelo entre as fases da vida do homem com as competências de alguns animais. 

 

 

A camisa expõe uma concepção machista e fálica sobre o papéis dos homens, dividida em etapas, com um auge entre 20 a 40 anos. Depois, vê-se uma queda clara de valor. Em especial,  depois dos 60 anos, quando viram cigarra e cantam, cantam e não comem ninguém. Em outras palavras, pouco a pouco, eles vão perdendo a virilidade e, por consequência, a razão de existir.  

O novo coronavírus não assusta aos homens velhos porque ele mata, justamente, aqueles que estão na hora de morrer. O fato de a covid-19 acometer ambos os gêneros de igual modo, mas matar o dobro de homens, não gera medo. Ao contrário, ele confirma uma visão de mundo.

Vejamos os números.

Letalidade do novo coronavírus por faixa etária (em %)

  • 0-9 anos = 0
  • 10-19 anos = 0,2
  • 20-29 anos = 0,2
  • 30-39 anos = 0,2
  • 40-49 anos = 0,4
  • 50-59 anos = 1,3
  • 60-69 anos = 3,6
  • 70-79 anos = 8
  • 80 anos ou mais = 14,8

Ao 65 anos, Bolsonaro é um homem do seu tempo. Enquanto as estatísticas confirmarem seu ponto de vista, ele continuará a minimizar a gravidade da situação. Afinal, "são só velhinhos que estão morrendo, se tiverem que morrer. Paciência".

Os entraves no uso da tecnologia

João Lopes de Araújo, aposentado, 82 anos, não ouve aos apelos dos filhos. Ele sabe dos riscos, mas optou por não mudar a rotina. Todos os dias, encontra seus amigos no carteado no Largo do Machado, uma praça movimentada na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Os fiscais da prefeitura já fizeram de tudo para brecar a aglomeração. Nem a interdição do espaço funcionou. Seu João rebate:

-Para me proteger, uso todos os métodos que são ensinados na TV. E, quando chego em casa, lavo bem as mãos. É isso — dizia seu Lopes, contando que na juventude ouvia histórias "piores" que as do novo coronavírus. Na gripe espanhola, no início do século passado, um amigo me disse que passavam caminhões carregando os cadáveres.

Ele não vai abrir mão dos amigos por uma gripezinha. A quarentena lhe tolhe a vida e não apresenta alternativas.

É importante que fique claro que a desmaterialização da vida foi o principal impacto que a covid-19 nos trouxe. Até agora, maior até do que o número de mortes. 

De uma hora pra outra, em pleno isolamento, fomos obrigados a levar a vida real para plataformas digitais. As compras nos supermercado on line aumentaram 80%, as empresas de beleza e perfumaria venderam 83% a mais no e-commerce e as farmácias faturaram mais 111% por seus canais de atendimento. 

Para aqueles que já estavam acostumados com o novo tom do mundo, a vida parece transcorrer com normalidade. A preocupação é se a banda da internet vai ser capaz de aguentar o peso da vida real. 

Mas, esse é um privilégio dos jovens. Os idosos não têm as mesmas facilidades. Aprenderam o vocabulário digital depois de adultos. Eles falam com sotaque. Muitos ainda desconfiam dos serviços digitais, não possuem ou têm dificuldades no manejo dos dispositivos.

A pesquisadora Taiuani Raimundo listou alguns entraves na relação dos idosos com a tecnologia. Para começar, eles não usam porque temem danificar os aparelhos por mau uso (40%). Outros, não se adaptam à linguagem (45%) ou não se conectam à internet com frequência (87%). Sem falar nas limitações impostas pelo envelhecimento, como por exemplo, a dificuldade para ler (75%), os deficits auditivos (23%) e a necessidade de assistência para usar os computadores, tablets e celular (77%) – o que, em tempos de distância social, é impossível. 

Enfim, presos em casa e sem poder comprar, encontrar os amigos, se divertir e resolver seus problemas cotidianos pelas plataformas digitais, os muitos velhos veem sua autonomia e liberdade tolhidos, o que torna ainda mais difícil fazê-los seguir às restrições da quarentena.

A saída mais fácil é reduzir a gravidade da doença.

A não-obrigação no cuidado dos outros

Até agora, a ação mais eficaz no combate à pandemia é a política de distanciamento social. Como o doente, na maioria das vezes, não apresenta sintomas, mas é um agente infectante, muitos temem ser um alavancador do sofrimento dos outros. 

Pesquisas recentes do grupoconsumoteca mostraram que as pessoas têm mais medo de transmitir doença para pessoas próximas e não estarem aptas para ajudá-las caso precisem (31%) do que de serem infectadas (15%). 

Aqui, é possível fazer uma conexão entre modelo de família tradicional baby boomer e a pouca preocupação dos homens com os riscos da infecção. 

Boa parte das famílias baby boomers se estruturam por um modelo hierárquico e uma clara divisão de papéis. Os filhos devem ser educados pelos pais que dividem tarefas na criação: os homens vão ao mercado de trabalho e são os responsáveis pela maior parte do orçamento familiar; já as mulheres, além das suas carreiras profissionais, enfrentam as jornada de cuidar da educação, de atender às demandas dos filhos e manter a rotina da casa. 

É importante lembrar que embora, nos últimos tempos, as feministas tenham reivindicado a transformação dessa família, entre os mais velhos o quadro persiste.  Elas ainda são responsáveis pela louça (58%), pelas refeições (51%) e pela limpeza da casa (51%). Eles ficam com a limpeza e conserto dos automóveis (69%) ou com serviços de jardinagem (59%). As mulheres cuidam dos outros, os homens cuidam de si. 

Desse modo, para lá dos 60 anos e com os filhos criados, as mulheres ainda se sentem obrigadas a estarem de prontidão para qualquer emergência com a família, caso seja preciso. Já os homens ganham uma dose extra de liberdade, porque acham que já financiaram a criação dos filhos, se aposentaram e não são mais os únicos responsáveis pela família. Já cumpiram seu papel.

Sem a obrigação de cuidar dos outros, sem o medo de serem infectados, a covid-19 perde a gravidade para os homens mais velhos. 

Os modernos e transgressores da juventude reinventaram os costumes quando jovens, mas, hoje, reproduzem boa parte dos modelos de comportamento da geração anterior. Mais uma contradição!

No entanto, o momento  é grave e pede que sejamos capazes de ver o mundo com os olhos dos outros. O impacto complexo do vírus sobre várias camadas das nossas vidas nos cobra a construção de pontes de diálogo, aos invés içarmos muros ainda mais altos que os dos tempos pré-corona. Entender como o outro vê e vive esse momento é o único caminho que temos para que todos tenham real dimensão do que estamos vivendo. 

Afinal, já é sabido, a covid-19 tá longe de ser uma gripezinha. Partamos para o que importa. 

***

Tenham empatia com todos os velhos, à exceção do presidente.

Jair Messias Bolsonaro tem 65 anos. Ele é um um baby boomer e é verdade que ele vive as contradições apontadas aqui. No entanto, no dia em que tomou posse como presidente da República, ele abriu mão do CPF e do RG para virar presidente.  

Assim sendo, presidente não tem data de nascimento e nem pertence a geração nenhuma. É uma instituição que tem o dever de zelar pelo bem-estar do povo ao qual representa. Cabe a ele ainda dialogar com as instituições e com os organismos internacionais e tomar medidas que a posição requisita.

Devia sê-lo quando acorda, anda, come, fala, toma banho, dorme. Devia deixar suas opiniões pessoais para o silêncio das alcovas. Elas pouco nos importam.

O ritual de posse e os juramentos feitos no dia 1º de janeiro de 2019, em teoria, serviriam para que o eleito incorporasse o cargo em si, na sua pessoa. Não aconteceu. 

Esqueceram de lembrar uma lição antropológica fundamental. Rituais (seja na política ou na religião) só funcionam quando todos os envolvidos acreditam no evento. Caso contrário, é perda de tempo. Bolsonaro jamais acreditou no jogo que joga. Deu no que deu.

Resta saber se, em poucos meses, sobrará algum mortal para ocupar o cargo ainda vago. 

Que Deus nos proteja! Só assim saberemos se o Brasil está acima de tudo e Deus acima de todos.

 

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.