PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Contato deu lugar à conexão: Covid-19 já mudou sexo e relacionamentos

Michel Alcoforado

21/05/2020 04h00

Os filósofos das redes sociais são unânimes em afirmar em suas postagens motivacionais: não seremos os mesmos depois da pandemia do novo coronavírus. Os mais otimistas acreditam que o futuro vai ser melhor. Seremos mais solidários, empáticos e generosos. Os pessimistas defendem que a vaca foi pro brejo de vez. O individualismo, a diferença e a disputa serão o cerne das relações. Eu, sem lado, fico com um funk do MC Marcinho, grande pensador do contemporâneo: não vai ser "nem melhor, nem pior, apenas diferente" na forma com que nos relacionamos com a vida, e em como odiamos e amamos uns aos outros.

Os primeiros sinais do novo normal vêm do outro lado do mundo. Na cidade de Xian, na região central da China, registrou-se um número recorde de divórcios no fim do isolamento social. Os cartórios locais, que desde antes da pandemia só atendem com hora marcada, em poucas semanas se apinharam de gente. As mulheres foram as principais requerentes dos pedidos. Justo.

Leia mais:

Seja no China ou no Brasil, a quarentena tirou boa parte dos momentos de respiro das mulheres. As pesquisas recentes que tenho feito sobre as mudanças recentes no pós-Covid-19 apontam para o forte desgaste que o convívio intenso com núcleo familiar, imposto pela onda viral, traz para as relações amorosas.

Presas em casa, com maridos folgados e filhos mimados, foram elas que tiveram que dar conta, sozinhas, da educação e alimentação das crianças, dos afazeres da casa, dos desejos dos maridos e da vida profissional. A vida repartida em contextos diversos, com brechas de fuga, acabou. A profissional não descansa mais a mãe. A mãe não relaxa a profissional. E a mulher, que gozava dos primeiros ganhos das lutas feministas recentes, se viu encurralada pelos afazeres domésticos, cuidado com a família e organização do lar. É duro carregar tanto peso. O velho ditado "antes só do que mal acompanhado" faz a alegria dos solteiros. Nem mesmo a chance do sexo frequente dá inveja. Os outros já não fazem falta.

Em tempos de pandemia, o contato deu lugar à conexão. Com o perigo do encontro, os aplicativos de namoro funcionam como mediadores de segurança para o afeto e o prazer. Se, tempos atrás, o não encontro era inimaginável (afinal, de que servem os apps de encontros se não podemos nos encontrar?), agora parece ser um alívio. Como me disse uma entrevistada: "O grande problema do Tinder era a hora de encontrar. Acabou o problema". Ufa!

Enquanto o lance nos apps ficava na troca de mensagens quentes ou no ir e vir de nudes pela madrugada, tudo era lindo. Mas, no cara a cara, os descompassos entre o imaginado e o real eram escancarados, mandando um jato de água fria na tensão. Por conta da pandemia, os apps de paquera mostraram a sua real função: estimulam o desejo. E só.

Nesse jogo, a masturbação aliada à estimulação visual mútua se transforma em um jeito de transar. É a nova troca em jogo. O sexo foi desmaterializado e virou só desejo. Não por menos, nas últimas semanas, cresceu a busca por produtos eróticos nas plataformas de busca. Com espacial atenção para vibradores e estimuladores individuais.

Aliás, o fenômeno não é novo. Pesquisas recentes já demonstravam a queda vertiginosa no número de relações sexuais entre os mais jovens. Sem falar na entrada maciça de investidores no mercado de inovações para o mercado da sensualidade.

Entre os finalistas do prêmio de inovação da feira Consumer Eletronics Show (o CES) de 2020 está um produto para o estímulo sexual feminino – o Lioness. Prova que a masturbação eficiente, otimizada e com a ajudinha da inteligência artificial também está na mira das startups.

Durante o isolamento, brinquedinhos divertidos, troca de mensagens quentes e muita live pornô têm feito a cabeça dos brasileiros que já entenderam que a diversão solo pode ser tão prazerosa (ou mais) quanto encontros com parceiros. Respiram aliviados do peso de ser bom de cama, da busca incessante da satisfação do desejo dos outros, das regras da Kama Sutra ou dos conselhos dos sexólogos de revista.

Quem imaginaria que a tecnologia e um vírus seriam capazes mudar a vida sexual de muita gente?

Resta saber se isso será "melhor, pior ou apenas diferente".

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.