Michel Alcoforado http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Tue, 29 Oct 2019 20:36:24 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 A economia colaborativa vai nos matar http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/10/29/a-economia-colaborativa-vai-nos-matar-a-todos/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/10/29/a-economia-colaborativa-vai-nos-matar-a-todos/#respond Tue, 29 Oct 2019 14:40:35 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=161

Um dos textos de maior sucesso deste blog foi quando tratei sobre os dilemas enfrentados pelos trabalhadores da Gig Economy — a chamada economia do bico. Desde então, venho recebendo centenas de mensagens de motoristas de Uber, heavy users dos aplicativos e, até mesmo, para minha surpresa, dos romeiros do Vale do Silício — esse novo tipo de gente que volta da Califórnia com a certeza de que as inovações criadas por lá fazem milagres.

Sigo pesquisando e refletindo sobre o impacto dos aplicativos de compartilhamento sobre as relações cotidianas e as transformações que a economia colaborativa vem sofrendo nos últimos anos. Aquilo que foi criado para resolver nossos dilemas contemporâneos vem, pouco a pouco, criando problemas sem soluções. Afinal, se acreditamos que a colaboração ia nos salvar, posso afirmar que ela está perto de nos matar. 

Veja também:

A economia colaborativa surgiu como uma nova maneira de produzir riqueza após a crise econômica que assolou o mundo em 2008. De lá pra cá, um grupo de empreendedores criou um novo modelo de negócio, no qual era possível produzir riqueza através do compartilhamento dos bens, produtos e serviços já produzidos. 

Empresas como Uber, Rappi, Loggi, Glovo, Airnbnb, WeWork, entre tantas outras, nasceram na sala de microapartamentos de jovens bem nascidos e já dominam mercados mundo afora. O crescimento é vertiginoso. Em 2014, a economia do compartilhamento movimentou US$ 15 bi nos Estados Unidos. Espera-se que até 2025 faturem mais de US$ 670 bi. 

Economia Colaborativa

Colaborar

Co: junto

Laborar: trabalhar, sentir dor, cansar-se

A pergunta que fica é: trabalhar junto com quem? Sentir Dor junto com quem? Cansar-se junto de quem?

Até agora, a conta não parece justa.

É certo que o crescimento do mercado é fruto do uso eficaz das plataformas digitais no desenvolvimento do negócio. Porém, não podemos esquecer que esses são mercados ainda livres de regulamentações estatais, o que faz com que suas atividades e as relações de trabalho sejam muito parecidas com as da Revolução Industrial no século 18. São máquinas de moer gente.

Todas as vezes que se tenta impor um conjunto de boas práticas entre as empresas do compartilhamento, seus líderes lembram que suas organizações nada mais são do que meras empresas de tecnologia, da nova economia e do mundo do futuro. E, por consequência, não podem obedecer às regras vigentes que lhes parecem ultrapassadas.

Foi assim semanas atrás. Diante dos 366 acidentes fatais com motociclistas na cidade de São Paulo em 2018, um aumento de 18% em relação ao ano anterior, a Prefeitura da cidade convocou as empresas de aplicativo para fazerem um pacto pela segurança dos parceiros. O acordo propunha o fim das bonificações por tempo e quantidade de entregas. Os especialistas acreditam que a política estimula o comportamento tresloucado dos motoboys que resulta em graves acidentes. Uber e Rappi se negaram a assinar o compromisso.

Outra rota de fuga bastante utilizada pelas empresas de compartilhamento para se livrarem de qualquer regulamentação está em negação de qualquer vínculo com seus parceiros. Enquanto o Estado se esforça para provar que há vínculos de trabalho, eles afirmam que motoboys, motoristas edonos de apartamento são apenas consumidores dos serviços de suas plataformas. Afirmo aqui que se não são uma coisa, não podem ser outra também.

As empresas defendem que os motoristas não são seus empregados porque podem usar o aplicativo na hora que bem entendem. Dessa forma, não se configura um contrato de trabalho. Ok.

Lembram que são empreendedores. Mentira. Empresários e empreendedores definem o preço do serviço vendido, traçam as estratégias de entrada no mercado ou as singularidades do trabalho. Os agentes econômicos só arcam com o custo do investimento inicial e aceitam as ofertas ( caso contrário, serão penalizados com a suspensão da plataforma) que os algoritmos lhe mandam.

Por fim, afirmam que não podemos classificá-los como meros consumidores de um serviço. Consumidores escolhem o que querem para suprir seus desejos. O motorista do Uber vai aonde tiver que ir, aceita a corrida com o preço do momento e obedece às ordens do aplicativo.

Dessa forma, implodindo as possibilidades de fiscalização e qualquer classificação dos seus parceiros, as empresas da economia compartilhada fazem o que querem, inventam as próprias regras, jogam séculos de lutas dos trabalhadores, dos cidadãos no lixo. Agem, crescem e se reproduzem sob a liberdade de um território sem lei.

É preciso que não esqueçamos que, por trás da pizza que chega ainda quente em casa, tem gente.

 Que, na miséria paga por uma corrida de Uber de longa distância, tem gente.

 E que no Airbnb jeitosinho que você aluga, há aluguéis altos.

 Aplicativo é bom, mas precisa de gente.

 Não nos esqueçamos.

 Caso contrário, a colaboração vai nos matar.

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Problemas para dormir? Seu celular tem muita culpa nisso http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/problemas-para-dormir-seu-celular-tem-muita-culpa-nisso/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/problemas-para-dormir-seu-celular-tem-muita-culpa-nisso/#respond Thu, 10 Oct 2019 07:00:37 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=151

(Foto: Marcelo Alves/Onipress Photos/Folhapress)

As expressões populares sintetizam dilemas e problemas cotidianos com bom humor e perspicácia. Rodeados de “santos do pau oco”, “amigos da onça” e “chatos de galocha” fica difícil “colocar a mão no fogo” por alguém. Diante da crise moral e econômica, é melhor nos juntar aos nossos para “chorar as pitangas”, “colocar panos quentes” sobre os problemas e curtir. Se passamos o dia com “a corda no pescoço”, fica cada vez mais difícil dormir tranquilo. Não caímos mais nos “braços de Morfeu” como antes.

Nos últimos 10 anos, aumentou em 13% o número de pessoas com problemas para dormir na cidade de São Paulo. Os dados divulgados pelo Instituto do Sono, em parceria com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostram que, em 2008, 67% dos habitantes da cidade tinham problemas para dormir; já em 2018, esse número passou para 80%. Além disso, 26,7% despertam precocemente, 36,5% têm dificuldade de manter o sono (garantindo a qualidade da noite bem dormida) e 25% não conseguem iniciar o sono. 

Veja também:

Já não se dorme mais nas grandes cidades só por conta do seu ritmo de trabalho ou da rede de comércio 24 horas. Pesquisadores acreditam que a dificuldade de mobilidade e a baixa escolaridade da população urbana fazem com que as rotinas de trabalho tenham horários que desafiem o relógio biológico. Tudo porque o sono dos moradores das grandes cidades está relacionado ao “perrengue” da mobilidade. Como os empregos estão distribuídos de maneira desigual no espaço urbano, há uma alta concentração dos empregos nas regiões centrais. Aqueles que moram longe dessas regiões acabam tendo menos horas de sono. 

Segundo uma pesquisa recente da Rede Nossa São Paulo, na Barra Funda, bairro da região central da cidade, há 59 postos de emprego formal para cada 10 habitantes em idade ativa. Em Cidade Tiradentes, bairro mais carente, localizado no extremo leste da capital, há 0,2 postos de emprego formal para cada 10 habitantes — índice 246 vezes menor. Além disso, se você considerar o tempo de médio de 2h43 por dia gasto em transporte público, o paulistano acaba sofrendo para transitar por São Paulo e dar conta da rotina. São privilegiados aqueles que moram perto do trabalho e podem dormir tranquilos, seja porque perdem pouco tempo no trânsito ou por não se estressar com o caos urbano na volta para casa.

Além disso, outro ponto que impacta gravemente as horas dormidas é a escolaridade da população. É importante considerar que mais da metade dos brasileiros não terminaram o Ensino Médio, e 41,4% dos trabalhadores está em situação informal. Em geral, profissionais com baixa escolaridade tendem a ter rotinas de trabalho que começam fora do padrão “das 9h às 18h”: ou entrando muito mais cedo, ou terminando muito mais tarde. Por consequência, são eles, os trabalhadores que sofrem com a falta de horas de sono. 

Assim, a vida nas grandes metrópoles junto às jornadas desafiadoras abrem as portas para que imaginemos um futuro em que dormir será um luxo para poucos. Ficar sem dormir impacta não só a qualidade de vida, mas também a produtividade no trabalho. Os mal dormidos sofrem com a sonolência durante o dia, baixa de energia, dificuldade em se concentrar, depressão, problemas de saúde e alta propensão a cometer acidentes. Sem falar que estão mais sujeitos a acidentes de trânsito, domésticos e de trabalho. A situação tende a piorar e não haverá soluções fáceis no médio prazo.

Não há problema sem solução, dirá o leitor apaixonado por startups e inovações tecnológicas. É verdade!

É crescente o número de aplicativos dispostos a ajudar os usuários a terem um boa noite de sono. Em minhas pesquisas com millennials sobre bem-estar, tenho visto o uso massivo de soluções tecnológicas para nos ajudar a esvaziar a mente e dormirmos melhor. Acabou o tempo em que iríamos medir a qualidade do nosso sono pela disposição ao acordar. Agora, há gráfico e aplicativo para tudo.

Na última semana, fui convencido a entrar na onda. Baixei o SleepCycle. Com acesso ao microfone do celular e com sensores que medem a movimentação na cama, o app promete controlar e monitorar todo o sono. É só dizer que horas deitou, colocar o smartphone ao lado do travesseiro e, no outro dia pela manhã, você receberá um gráfico sobre a sua “performance”, com quantidade de minutos por tipo de sono, o barulho do seu ronco e tudo mais. E o melhor, tudo pode ser compartilhado com a rede de amigos no Facebook ou no Twitter. É uma promessa de sucesso!

Só tem um detalhe: os fissurados nas inovações do Vale do Silício esqueceram que a luminosidade da tela dos smartphones reduz a produção da melatonina, um hormônio que age diretamente nos padrões de sono. Pesquisadores da Universidade de Toledo, nos Estados Unidos, mostraram que a luz azul é formada por um espectro de infinitas cores, sendo muito similar à luminosidade do Sol em dia de calor. Isso tem um papel fundamental para regular o nosso relógio biológico. Assim, dormir após olhar por muito tempo a tela do celular tem o mesmo efeito que passar uma tarde em um parque tomando banho de sol. Com isso, os aplicativos de descanso, sejam eles de meditação, sono ou plenitude, sofrem uma contradição: prometem paz, calma e relaxamento, mas precisam da ajuda da luz azul que desperta energia, senso de prontidão e vivacidade. Pensando nisso, será que a principal função é nos ajudar a dormir, mesmo?

É certo que não. Até porque eles tiram o sono pela quantidade de dilemas éticos que nos apresentam. Tais aplicativos introduzem em nosso cotidiano a certeza de que há uma forma correta de dormir e que todos temos de prossegui-la. Abrem brechas para que concorramos com outros até quando dormimos. De que serve o compartilhamento desse tipo de dado com a rede de amigos?

Sem falar que eles redefinem a nossa relação entre o público e privado. Antes, o sono era algo da esfera individual ou daqueles que compartilhavam conosco o mesmo ambiente de dormir. Agora não! Dormiremos todos com as Big Techs do outro lado da cama. Só para os grandes conglomerados de tecnologia terem acesso aos dados, até no nosso descanso. Estão usando essas informações de forma que nem sabemos.

Com tudo isso, o mesmo jogo que nos obriga produzir em larga escala é o que nos tira a produtividade por causa da noites mais dormidas sob efeito das luzes azuis. O mesmo sistema que nos promete liberdade e possibilidades infinitas também está controlando cada passo seu. É só o começo.

E é de tirar o sono.

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Deu ruim? Pais millennials se empenham em criar filhos mortos de cansaço http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/09/24/deu-ruim-pais-millennials-se-empenham-em-criar-filhos-mortos-de-cansaco/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/09/24/deu-ruim-pais-millennials-se-empenham-em-criar-filhos-mortos-de-cansaco/#respond Tue, 24 Sep 2019 16:03:28 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=141

Passei um final de semana inteiro com minha afilhada de 12 anos.

Milena é a primeira pré-adolescente com quem interajo por mais de duas horas desde quando eu era um. Não tenho e nem quero filhos. Desconheço os best-sellers dos youtubers do momento, as sorveterias de unicórnio com ótimos preços e os próximos lançamentos dos estúdios Disney. Só os pais têm licença poética para falar de personagens coloridos com propriedade sem passar vergonha. Com a missão de enfrentar as horas juntos, pedi dicas a amigos. Fiquei chocado. Os pais millennials andam se esforçando em criar a primeira geração de crianças mortas de cansaço.

Estamos diante de uma geração de pais ansiosos em oferecer aos seus filhos uma educação condizente com a sua visão de mundo. Eles esperam que os mais novos realizem a utopia que imaginaram para suas vidas e, com isso, sejam melhores versões do que não foram. Aqui mora o problema.

Veja também:

Vale lembrar que millennials são aqueles que nasceram entre 1980 e 1995 e cresceram durante o forte crescimento econômico do Brasil. Eles viram seus pais consolidarem um padrão de vida, em geral, melhor do que o dos avós. Consequentemente, estudaram mais, assumiram o risco de terem uma trajetória profissional nova, questionaram a posse de carros ou apartamentos, lambuzaram-se no canto de sereia da economia colaborativa, fruto da forte expansão da internet e das plataformas digitais. Pais millennials se sentaram nas cadeiras das grandes corporações e questionaram a hierarquia, a forma de trabalho e o layout das baias. Pediram mesas de pinball, espaços colaborativos, zonas de descompressão e empresas com missão, legado e impacto positivo. E desafiaram o que todos pensavam sobre trabalho, consumo, família, alimentação, sexo e educação.

No curso de tantas transformações, os millennials inventaram um mundo no qual eles próprios não se encaixam. E, como não deram conta da completa reinvenção nessa encarnação, estão empenhados em fazer com que os filhos cumpram a promessa da sua geração. Vai dar ruim!

A começar pelo fim do tédio. As crianças, ao contrário das outras gerações, não ficam mais jogadas num canto, afastadas das conversas dos adultos, brincando entre si e imaginando um mundo mais divertido do que o real. Agora, acredita-se que é mais seguro manter os filhos perto de si com um celular na mão preso no jogo do momento, devidamente monitorados, do que correndo suados de um lado a outro, no playground do prédio, que, aliás, viraram brinquedotecas.

Não há mais janelas de tempo livre. Se estão de férias, então, é um desespero. Compram-se guia de pacotes de programas infantis nas bancas de jornal. Os sites com programação infantil são atualizados o tempo todo. As escolas inventam colônias de férias a preços exorbitantes para lucrarem às custas do desespero dos pais. Todos sofrem para manter os filhos ocupados.

Em São Paulo, crianças de 7 a 17 anos já podem descobrir “a arte de aprender de forma prática e lúdica, para que (…) consigam desenvolver e realizar seus sonhos de forma criativa e inovadora” – diz o site da escola de cursos extracurriculares MBA Kids. Com uma metodologia nova e fundadores com anos no mundo corporativo, o programa promete formar empreendedores 4.0 com visão de negócios, liderança, de tomada de decisão, educação financeira e gerenciamento de tempo.

Sem tédio, sem tempo e com horas de aula de gestão financeira no horário em que eu vi Pokémon na TV Manchete, as novas crianças sofrem com as frustrações cotidianas. Mas, para isso, pais millennials se valem do que aprendem nos livros de autoajuda, nos aplicativos de meditação e nas sessões de terapia alternativa para educar os filhos. E, quando não conseguem resolver os dilemas da criação, contam sempre com uma gama de novos profissionais. Vai de terapia com músicas de Chico Buarque para diminuir a ansiedade até a novidade do momento: os kidcoaches. Isso mesmo!

As fórmulas de sucesso, a busca por propósito, paixão e felicidade deixaram as sessões de best-seller das livrarias e chegaram ao parquinho. Os kidcoaches, com as ferramentas do momento, trabalham com crianças a partir de dois anos, que são consideradas tristes, tímidas, com poucos amigos, agressivas ou sem planos para o futuro. O que antes era normal agora é doença.

Para fugir dessa loucura, cortei o roteiro sugerido pela metade. Pincei o Museu da Imaginação na lista. O museu, lotado de pais millennials, conta com duas exposições temporárias sobre grandes personalidades: uma do Monet e outra do Da Vinci. A primeira sala foi pensada pela artista plástica Coca Rodriguez Coelho e propunha um mergulho no universo de Monet. Entramos. Era uma sala escura, banhada com luz negra e azul, com pedaços de espuma por todo o canto, e crianças correndo de um lado a outro. Normal. Mas a todo tempo, os pais capturavam seus filhos para o sermão:

“É Monet, fiiiiilho. É arte, fiiilho. Sabe quem foi Monet, fiiiiiilho?”, repetiam para crianças ofegantes nada interessadas.

Do outro lado, havia a sala de Leonardo da Vinci reunia pais preocupados em explicar o funcionamento do sistema de roldana inventado séculos atrás para crianças de três anos.

Desesperado com as experiências de paternidade millennial e certo de que crianças não podem ser tratadas como máquinas de aprendizado, fugi com Milena para a lanchonete mais próxima.

Ela pediu um hambúrguer, batatas fritas, um sorvete com calda e confetes. Esticamos as pernas no sofá confortável, tomamos baldes de refrigerantes e conversamos. Até que ela me disse que fazia tempo que não comia não-orgânicos.

“É pra isso que servem os dias de folga”, respondi.

Não fizemos nada o resto do final de semana.

Nem tudo está perdido.

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Em época de crise, o que é supérfluo para você? http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/09/13/e-tudo-superfluo/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/09/13/e-tudo-superfluo/#respond Fri, 13 Sep 2019 19:43:32 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=135 Ok… Eu já sei. A situação econômica do Brasil vai de mal a pior. Os especialistas nos lembram todos os dias que, não importa a profissão ou estado civil, a economia em queda e as altas taxas de inflação vão atingir em cheio o bolso dos brasileiros.

Tempos de crise? Certamente, esta será apenas mais uma entre tantas outras que já vimos atingir e causar fortes solavancos na economia brasileira. Por aqui, não há processo contínuo de crescimento. Somente um eterno movimento cíclico de altos e baixos, tempestades e bonanças que deixam qualquer chefe de família de cabelo em pé diante do orçamento familiar. Enfim, em tempos difíceis, é chegada a hora de apertar os cintos. Não tem jeito.

E aí? Como passaremos de um modelo econômico focado no estímulo ao aumento do consumo das famílias para o momento atual, em que o mandamento é segurar a onda? Pararemos todos de comprar? Afinal, segundo os economistas, até segunda ordem, a regra é comprar só aquilo de que se precisa. Grande dilema. É nesse momento que a distinção clássica entre o necessário e o supérfluo volta a acompanhar todos os consumidores durante seu processo de compra, seja numa loja na R. 25 de março, em São Paulo, seja no corredor de um shopping de luxo.

Mas, afinal, como definimos o que é supérfluo e o que é necessário? Questão difícil e com muitas possibilidades de resposta. Não é preciso grande esforço para perceber que os produtos e serviços de que abrimos mão, ou não, variam de pessoa para pessoa. O que é essencial para mim pode ser uma besteira para minha mulher, e vice-versa. Esse fato não se resume ao gosto individual ou ao conjunto de preferências pessoais de cada um. Classe, idade, gênero, trajetória social e posição social são variantes determinantes nossa escala de desejos de consumo e na hierarquização do que é necessário ou supérfluo.

Nossas escolhas estão imbricadas no jogo social do qual participamos. Inclusive, a construção da escala de valores que atribuímos a qualquer produto ou serviço. O que é essencial ou supérfluo em nosso mundo é fruto de um intensa negociação das nossas vontades com o grupo do qual fazemos parte. Afinal, necessário é tudo aquilo que não precisamos de justificativa social para consumir. Já supérfluos são aqueles itens que nos cobram sempre uma explicação. Água é item necessário ou supérfluo? E água Perrier?

Na pesquisa que realizei com os ricos de São Paulo, ouvi, por diversas vezes, que a crise hídrica enfrentada pela cidade lhes obrigou a mudar alguns hábitos. Para eles, foi-se o tempo em que a preocupação básica dos consumidores estava em descobrir se a água era potável ou não. Agora, a elite paulista queria mais. Só bebia água com sobrenome. Para adultos e crianças, água Perrier; para os animais domésticos, água Prata – com PH alcalino e ótima para o organismo.

Diante do meu espanto, escutei a seguinte afirmação: “Ué, meu filho. Isso é o básico, disso a gente aqui em casa não abre mão. É o mínimo.” Os amigos presentes, todos da mesma classe social,  concordaram com a minha interlocutora de pesquisa. Aquilo era só o mínimo.

A régua dos outros pode ser muito diferente da sua.

 

 

 

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Cidadãos consumidores sim, e daí? http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/cidadaos-consumidores-sim-e-dai/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/cidadaos-consumidores-sim-e-dai/#respond Thu, 29 Aug 2019 01:52:09 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=130  Instituído no final dos anos 1990, o Código de Defesa do Consumidor foi criado por dois motivos: Primeiro, por conta da necessidade de acompanhar o avanço da sociedade que depositava boa parte de suas forças e energias no consumo enquanto atividade social. Por outro lado, já era mais do que hora da legislação vigente no Brasil se preocupar em definir os limites na relação entre as empresas e os consumidores. Até então, a Carta Constitucional de 1988 só garantia, em seu artigo 5º, inciso XXXII, que era papel do Estado promover na forma da lei a defesa do consumidor.

Demorou muito tempo, quase dois anos, para que o Ministério da Justiça fosse capaz de reunir grandes nomes do Direito Nacional para elaborarem o Código de Defesa do Consumidor. Depois de aprovado, o documento impactou fortemente as relações de consumo. Agora, os consumidores não estavam entregues à própria sorte. Cabia aos fornecedores e aos prestadores de serviço o dever de buscar a maior qualidade possível na fabricação dos produtos e no atendimento. Naquele Brasil pós-redemocratização, em que a sede por direitos era a tônica de todos os debates, os brasileiros podiam se orgulhar por ter voz em mais uma arena: o consumo.

Lembro-me das inúmeras reportagens nos jornais dos anos 90 mostrando consumidores insatisfeitos com os produtos comprados e indo em busca da resolução dos seus problemas. Em geral, os brasileiros daquele tempo não clamavam somente por solução, mas por direitos. “Eu quero meus direitos. Vou em busca dos meus direitos. Eu vou ao PROCON!” – eram algumas das frases mais ouvidas nos momentos de impasse entre consumidores e empresas.

Não temo em dizer que o impacto do Código de Defesa Consumidor (CDC) na vida brasileira no final do século passado foi similar à promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) nos anos 40. Ambas permitiram que os brasileiros se dessem conta de que o Estado, apesar de ser uma abstração, tinha cara, carne e osso quando preciso. E, mais do que um cerceador das liberdades individuais, principalmente quando impunha os deveres, o Estado podia ser um garantidor dos direitos. O trabalho formal e o consumo deram aos brasileiros o acesso à res publica (a coisa pública) e à percepção de que todos são iguais independentemente das diferenças. O consumo acaba com o Brasil do jeitinho e do “você sabe com quem tá falando?”.

Por exemplo, não é preciso fazermos grandes pesquisas na memória para lembrar do tempo em que as elites se valiam dos objetos de consumo que tinham para pleitear privilégios. A vida no Brasil era um tal de “não venha me impor a lei, olhe o meu carro importado”, “não me cobre meus deveres, olhe meu relógio de marca, “não me perturbe, veja a minha bolsa de luxo”.

Com o acesso das camadas populares a bens de consumo antes restritos às camadas médias e aos ricos, aos poucos, os mecanismos de enfraquecimento da cidadania vão diminuindo. Já não dá mais para recorrer a diplomas, carros e itens de luxo para marcar que se pode ter mais direitos do que deveres, como no passado.

Com a CLT e com o CDC, todos se viram diante das mesmas regras. Não importava, pelo menos na teoria, as cifras do contracheque ou o tamanho da fatura do cartão de crédito. Era o consumo e o trabalho construindo cidadania. Não é por acaso que boa parte dos brasileiros conhece muito mais seus direitos enquanto trabalhador e consumidor do que os princípios básicos que norteiam a Constituição.

Hoje, com a redefinição das relações de trabalho, o consumo, os direitos e a cidadania andam cada vez mais juntos, e o Código de Defesa do Consumidor se mantém vivo – apesar da idade. O conjunto de regras ainda persiste porque foi abraçado pela sociedade e ganha, a cada dia, novos sentidos e usos que o mantém conectado com a nossa realidade. O Código de Defesa do Consumidor foi a lei que deu certo.

Tomara que por muito tempo.

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Nem toda invenção é inovação http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/08/16/nem-toda-invencao-e-inovacao/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/08/16/nem-toda-invencao-e-inovacao/#respond Fri, 16 Aug 2019 16:16:08 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=116

Menino ganha Ferrari coberta com logos da grife Louis Vuitton

A jogada mais parece um passe de bola ensaiado. Em qualquer evento de inovação desse país, empreendedores de palco começam as palestras dizendo: “Acabo de voltar do Vale do Silício”.

A expressão que deveria ser uma mera alusão a um importante centro de criatividade funciona como uma oração milagrosa. É só repetir e, sem mais, nem menos, a plateia se ajeita na cadeira, cutuca o amigo do lado, presta atenção e vibra à espera do futuro prometido. Se tiver cases e o montante do dinheiro já investido, melhor ainda. É batata. Celulares são içados à altura do telão, slides viram fotografias e são compartilhados nos grupos de conversa com os colegas de trabalho que dormem com o desafio de transformar as baias de trabalho (em geral, bege ou cinza) em células de criatividade.

Semanas atrás, num desses eventos, vi uma senhora entusiasmada por compartilhar trechos de uma palestra com sua rede de contatos. Com uma bolsa de luxo no colo, ela vibrou quando soube de uma start up que colecionava todos os clichês do mercado.

A Entropy foi fundada em 2017 por três indianos, ex-alunos da Universidade de Bangalore, que viram no interesse dos jovens por produtos de luxo de segunda mão uma oportunidade. Criaram um negócio que une Big Data, Inteligência Artificial e Deep Learning. Com mais de 800 mil fotos de produtos de 11 marcas de luxo no banco de dados, a empresa é capaz de aferir, com acerto de 98.5%, se itens de luxo são falsos ou verdadeiros.

Foi só o palestrante terminar de contar a história que alguém gritou da plateia: “Não é magia, é tecnologia”. Eu emendei: “Ir a São Francisco é o novo fui a Aparecida do Norte”. Ao meu lado, a moça da bolsa confessou, aos sussurros, que era romeira das duas cidades.

Se é verdade que fé move montanhas, também é certo que a crença no poder das próprias ideias não faz de empreendedores, inovadores. Invenção e inovação são criações humanas. Fora isso, as duas palavras só têm em comum o fato de começarem com a letra i. Mais nada.

Produtos e serviços inovadores precisam resolver problemas dos consumidores e obedecer às convenções culturais. Se não seguirem a cartilha do jogo social, de uma forma ou de outra, serão domesticados pela cultura ou serão esquecidos na Inventolândia – é bem divertido, mas sem função.

Em entrevista recente à rede americana Bloomberg, Vidyuth Srinivasan, CEO da Entropy, defendeu a relevância do serviço e lembrou que, hoje, a certificação de produtos é feita por humanos e, daqui em diante, será por algoritmos. Duvido. A autenticidade de qualquer produto de luxo não está só na avaliação do material, mas também diz respeito à leitura que fazemos daqueles que usam, onde levam e o como os usam.

Vejamos o caso de Clodovil Hernandez, que era famoso pela ostentação de um gosto sofisticado e pelas bolsas de grife. Faliu no final da vida e deixou bolsas, relógios e uma montanha de dívidas como patrimônio. Para cobrir o rombo, os herdeiros leiloaram os bens. Na avaliação do espólio, descobriu-se que o apresentador tinha duas bolsas de grife falsas. Ninguém nunca imaginou que Clodovil Hernandez era cliente da 25 de Março.

Pessoas reconhecidas como sofisticadas não precisam de certificados que comprovem a origem dos bens que carregam. Elas, pela trajetória de vida, pelos lugares que frequentam e pelos gostos, são prova inquestionável da autenticidade. No Brasil, um brechó de luxo operado por garotas da bem-nascidas tem mais reputação na aferição da autenticidade de um produto do que qualquer maquinaria.

Por outro lado, uma bolsa Hermés, avaliada em mais de R$ 100 mil, num vagão de trem lotado, às 5 da manhã, na Estação da Luz em São Paulo, também não precisará dos serviços da Entropy. Pelo contexto, o item será visto como falso, mesmo que a dona carregue a nota fiscal de compra.

Aviso aos romeiros do Vale do Silício e aos investidores: Parem de perder tempo e dinheiro com ideias mirabolantes que só fazem sentido nos meet ups de coworkings da moda. De nada adiantará programar algoritmos se não compreendermos as reais necessidades humanas em jogo.

Ainda na conferência, perguntei à senhora se ela toparia submeter a própria bolsa aos testes da start up gringa. Sem titubear, olhou para mim e perguntou: “Olhe bem para minha cara. Eu lá tenho cara de que uso bolsa falsa?”.

Não é magia, não é tecnologia, é antropologia, respondi.

Rimos juntos.

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O espelho trincado das redes sociais http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/07/31/o-espelho-trincado-das-redes-sociais/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/07/31/o-espelho-trincado-das-redes-sociais/#respond Wed, 31 Jul 2019 09:36:40 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=105

Devo aos estúdios Disney a cena mais marcante da minha infância. Sentado no tapete da sala da minha avó, vi de longe um castelo na TV. Com rapidez, a câmera chegou aos aposentos da família real. Uma mulher alta, magra, vestida de preto, chega perto do espelho e pergunta: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu? E ele responde: Sim, Majestade“. Era a Rainha Má, madrasta da Branca de Neve. Pirei.

Como seria ter espelho que não reflete apenas o real, aquilo que somos? E mais, como lidar com uma avaliação diária da nossa imagem em comparação ao resto da humanidade? Sou melhor do que os outros? Quem diz? Quem faz o cálculo? Não demorou muito para o conto de fadas virar realidade. Parece que esse dia chegou.

Hoje, há mais de 8 bilhões de espelhos como o do desenho por toda parte. São os smartphones. Os black mirrors nos conectam a redes sociais e nos dizem diariamente o que somos, reforçam estereótipos, derrubam autoestimas e definem o que é relevante, aquilo que bombou ou flopou.

Pelo menos, definiam.

Nas últimas semanas, o Instagram decidiu abolir os likes. Os usuários poderão marcar as publicações que mais lhes agradam, mas não terão mais a chance medir a quantidade de corações recebidos. Fica o amor, saem os números. Blogueiras, influencers, especialistas de redes sociais e agências de marketing digital comemoram o feito. Dizem que agora terão a liberdade de expor seus conteúdos (sim! Eles chamam a vida cotidiana de conteúdo) sem se preocuparem com o impacto ou engajamento da audiência. Eu tenho dúvida.

A mudança atinge radicalmente a vida – das blogueiras, dos influencers e as nossa – com impactos sérios inclusive para a saúde mental.  É preciso lembrar que boa parte desses profissionais amadureceram junto com a tecnologia, descobriram seus gostos, seus hábitos e a própria a identidade em pleno diálogo com as regras dos algoritmos das redes sociais e com um público disposto a aplaudir ou criticar seus feitos. Agora, sem a contagem de likes, o jogo será outro.

Há tempos que venho chamando a atenção para o impacto das redes sociais e das plataformas digitais sobre a vida cotidiana. Entre eles, não deixo de fora a nova relação com o desejo.

Nunca tivemos nossos objetos de desejo tão perto de nós, nos atiçando diariamente a querer e a comprar cada vez mais. Um passeio rápido pelo Instagram virou um disparador de quereres. Descobre-se a praia paradisíaca visitada por um amigo, um lançamento de uma bolsa da marca preferida publicada por uma blogueira famosa ou o restaurante da moda por meio do stories.

Do mesmo modo, nunca tivemos nossas vidas tão vigiadas pelos outros. Afinal, com as redes sociais, temos mais conexões e, de alguma forma, todos viramos celebridades. Há mais gente que conhece a gente do que conhecemos. Isso era coisa para artista da novela da Globo tempos atrás. Pessoas com as quais temos pouco contato podem acompanhar nosso dia a dia com uma facilidade impensável há anos atrás e estão permanentemente de olho no que fazemos comentando, incentivando ou desestimulando certos comportamentos.

No entanto, a maior transformação está na possibilidade de metrificarmos o desejo. Hoje, não só sabemos quais aspectos da nossa vida mais chamam atenção da nossa rede de amigos, mas o quanto eles motivam a “nossa audiência”. Seja no Tinder, no Facebook ou no LinkedIn, é possível medir o quanto um selfie gera mais likes do que uma publicação sobre um livro que estou lendo. E por consequência, começamos a moldar nossa identidade, aquilo que somos, de forma a chamar atenção e agradar aqueles que nos seguem. E, pouco a pouco, preferimos nos transformar naquilo que as redes pedem.

Esse descompasso provocado pela metrificação do desejo faz com que muitas pessoas virem duas: a que funciona nas redes sociais e gera muito like, e uma outra que existe apenas na vida fora dos holofotes, a real. E o difícil gerenciamento das duas personas abre brechas para o surgimento de crises de imagem e sérias ruptura na identidade pública de muitos.

Não foi à toa que descobrimos nessa semana que o Primo Rico é pobre. Thiago Nigro, empreendedor e um dos maiores youtubers do país, com mais de 87 milhões de visualizações (olha as métricas dos desejos aqui!) em seu canal no Youtube sobre finanças pessoais tem uma dívida de quase R$ 2 milhões em um apartamento que irá leilão. O burburinho trouxe sério prejuízo a sua imagem, o obrigou a vir a público dar explicações. Todos queriam saber em qual Thiago acreditar: o que faz sucessos com conselhos financeiros ou naquele que não consegue pagar as parcelas do apartamento que tem em seu nome.

A pergunta que fica é: E agora, sem os corações do Instagram, como os influencers descobrirão o que são?

Já posso imaginar um remake de “Branca de Neve” adaptado aos novos tempos. Na nova versão, a Rainha Má chegará perto do seu Google Home e perguntará: Google, como anda a minha imagem pelas redes sociais? Ele responderá: Nenhum coraçãozinho, Majestade.

Vem crise por aí.

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A elite brasileira é egoísta http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/a-elite-brasileira-e-egoista/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/a-elite-brasileira-e-egoista/#respond Wed, 17 Jul 2019 10:38:22 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=98 Acabo de chegar da Universidade de Leiden onde fui convidado para participar de uma conferência internacional. Pesquisadores do mundo todo se reuniram na pequena cidade holandesa para entender a relação de diferentes culturas com o dinheiro. Em Pequim, Istambul ou Calicute, a vida se resolve entre o crédito ou débito, mas as pessoas gastam, investem e doam o que ganham de maneiras muito diversas.

Coube a mim a dura tarefa de explicar como o Brasil, a oitava maior economia do planeta, ocupa a 122º posição no ranking dos países mais comprometidos com filantropia, doação e solidariedade. Na América Latina, apesar da opulência econômica e política, estamos na lanterninha. Proporcionalmente ao tamanho de nossas economias, doamos menos que Bolívia, Honduras e Colômbia. Isso para não lembrar que Sudão do Sul, Quênia, Sri Lanka e Gâmbia, nações com sérios problemas socioeconômicos, ocupam posições melhores no ranking de 144 países criados pelo World Index Giving.

Explicações não faltam. Explicadores também não.

Diante dos fatos, Fernando Schuller, cientista político, prefere culpar as instituições. Defende que nos Estados Unidos há um claro modelo de incentivo à filantropia por conta dos abatimentos expressivos nos impostos de renda dos generosos. E ainda lembra o imbróglio burocrático que os doadores brasileiros têm de enfrentar caso queiram contribuir para organizações públicas.

Para Andrea Wolffenbuttel, do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, os países desenvolvidos contam com uma população com níveis mais altos de educação, o que contribuiu para que todos tenham mais consciência de seu importante papel na sociedade. Outros, como João Paulo Vergueiro, da Associação Brasileira de Captação de Recursos, acreditam que, nos países com economia mais robusta, já se consolidou o hábito de ajudar pessoas e causas que contribuam na construção de uma sociedade mais justa.

Tudo balela.

É verdade que o modelo tributário americano incentiva as doações. Por lá, pode-se abater de 30% a 50% dos rendimentos tributáveis com a filantropia. Mas, também é verdade que, quando o assunto é imposto, o Brasil é um mar de benesses para os mais ricos.

O país não taxa dividendos dos acionistas, não taxa grandes fortunas de maneira progressiva, tem um imposto sobre patrimônio herdado ridículo (4% a 8%) e a tributação média paga pelos mais ricos gira em torno de 12%. A elite brasileira não paga impostos e também não doa. Eles preferem gastar com bolsas e relógios em Miami.

Desde de 2010, venho pesquisando o jeito brasileiro de ser rico. Entrevistei mais de 120 milionários e bilionários – entre eles, ricos tradicionais e novos ricos. Viajei para Dubai, Miami, Paris, Nova York, Genebra, África do Sul, Botswana, Londres, entre outros lugares. Frequentei clubes exclusivos, cursos fechados para grupos de amigos sobre História da Arte. Fui a jantares especiais e leilões beneficentes. Acompanhei de perto o trabalho de escritórios de contabilidade e de administração de grandes fortunas. E vi de perto o sentido que os ricos brasileiros dão ao dinheiro gasto, guardado e doado.

E ainda fica a pergunta: Por que não doam? Como uma das maiores economias do mundo, com mais de 154 mil milionários e 58 bilionários, possui uma das taxas de doação para filantropia mais baixas de todo o planeta? A minha tese é que a elite brasileira já se acostumou com as desigualdades sociais gritantes que permeiam o país. E mais: ao contrário dos ricos americanos, os brasileiros veem o Estado e a sociedade como uma ameaça ao sucesso individual. Como resultado, quando ricos, acham que não devem nada a ninguém e não se sentem obrigados a contribuir para o desenvolvimento das sociedades. Para eles, tudo é culpa e papel do Estado.

Vejamos as diferenças entre o caso americano e o brasileiro.

Em 2010, Melinda e Bill Gates, sócios da Microsoft, e Warren Buffet, grande investidor, criaram a The Giving Pledge – uma organização que busca incentivar pessoas e famílias com grandes fortunas a contribuir com uma parte significativa de sua riqueza para causas sociais. Hoje, a instituição conta com 175 ricaços que se comprometeram a doar, no mínimo, mais de 50% da fortuna acumulada ainda em vida.

O casal Gates já doou mais de US$ 36 bilhões. Quando perguntada sobre o porquê, Melinda disse em uma entrevista: “Eu vejo como um processo muito natural. É claro que o dinheiro que nós ganhamos é resultado do nosso trabalho duro, mas nós devemos algo à sociedade. O lugar onde nascemos, as escolas onde estudamos, as pessoas que encontramos, os livros que lemos foram fundamentais para o nosso sucesso. Nós podemos tomar riscos que o Estado não pode tomar”.

Já o discurso das elites brasileiras é muito diferente. Em minhas entrevistas, quando lembram do próprio passado, nossos ricos o fazem com especial ênfase à capacidade que tiveram de superar os problemas e entraves criados pela sociedade e pelo Estado. Isto é, eles acreditam que ficaram ricos  apesar da burocracia, da baixa produtividade do trabalhador brasileiro, da corrupção, das crises econômicas e por aí vai.

Além disso, com o retorno do discurso neoliberal, muitos creem que os verdadeiros injustiçados na sociedade brasileira são os empresários. Eles geram riqueza e criam empregos, apesar do contexto desfavorável. O Estado é visto como uma ameaça e a sociedade como uma fraqueza para o sucesso dos indivíduos. Tal fato dificulta a construção de vínculos de solidariedade ou reciprocidade com a comunidade e dificulta os ciclos de doação.

Como me disse um dos homens mais ricos do Brasil em um jantar em sua casa: “Eu dei certo por causa do meu esforço e da educação que meus pais me deram. Se devo alguma coisa pra alguém, é para eles, para a minha família. É por isso que assim que eu comecei a ganhar dinheiro comprei uma casa bonita para eles, no melhor bairro da cidade e dei todo o conforto até a morte”.

Aqui grita a diferença. Enquanto os bilionários americanos acreditam que trabalharam duro e tiveram sucesso também por causa da sociedade, lhes parece normal que tenham de retribuir através das doações. No Brasil, os ricos brasileiros pensam diferente. Eles falam com rancor do sucesso obtido apesar da sociedade onde cresceram, não se sentem em dívida com ninguém e, consequentemente, não doam.

A  The Giving Pledge conta com bilionários de mais de 21 países. Apesar de o Brasil ter 58 aptos a participar, somente um se comprometeu a doar 60% da fortuna acumulada ainda em vida. É o empresário da construção civil Elio Horn. Dono de uma das maiores empresas do setor, a Cyrella, o empresário é um self made man. Nasceu na Síria, emigrou para o Brasil com 10 anos e começou a trabalhar vendendo produtos de porta em porta. Entrou no mercado imobiliário vendendo e comprando apartamentos e terrenos. Fez fortuna. Agora, divide seu tempo organizando a doação do patrimônio e tentando convencer os outros bilionários brasileiros a entrarem no grupo e doarem suas fortunas. Sem nenhum sucesso.

Quando perguntado em uma entrevista recente sobre por que se comprometeu em doar tanto dinheiro, Elio é direto: “Eu me considero um pouco egoísta. Eu faço bem por proveito próprio porque faz bem pra mim e se tornou um hábito”. E se todos fossem egoístas iguais a você, que maravilha seria viver. Pensei, me lembrando do poeta.

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Desinformação: somos todos culpados http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/07/03/desinformacao-somos-todos-culpados/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/07/03/desinformacao-somos-todos-culpados/#respond Wed, 03 Jul 2019 07:19:34 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=91 Mesmo antes de assumir o cargo de presidente do Brasil, Jair Bolsonaro elegeu a imprensa como um de seus inimigos. O jornalismo e os jornalistas são alvos de ataques constantes do presidente e, de seus filhos, no Twitter. Cada dia, é uma pedrada.

Para minar a credibilidade dos meios de comunicação, Bolsonaro e seus aliados tacham qualquer informação desagradável aos olhos do governo como “notícia falsa” ou “fake news”. A moda foi importada do presidente americano Donald Trump, maior expoente na guerra mundial contra a imprensa e ídolo do bolsonarismo. Infelizmente a técnica funciona e há quem se convença que qualquer notícia crítica é um atentado ideológico contra o governo e com certeza é falsa.

Sejam as notícias realmente falsas ou apenas acusadas de serem falsas, o fato é que as fake news viraram parte da rotina do brasileiro. Esse é um dos temas que venho pesquisando nos últimos anos. No Espiral da Verdade, fiz uma pesquisa quantitativa com mais de 1000 brasileiros e, pasmem:  72%  já se sentiram enganados por uma notícia falsa.

Eu mesmo festejei desesperadamente quando surgiu o áudio do Sr. Armando, dono da padaria em Botafogo, acusado por um funcionário enfurecido de não acreditar nos seus motivos para não trabalhar depois do último dilúvio na cidade do Rio de Janeiro. Acreditei no empregado, ouvi repetidamente, festejei a chegada de um novo levante dos trabalhadores e mandei para todos os meus amigos. Até que descobri, no outro dia, que tudo não passava de uma brincadeira.

O Jornal O Extra fez uma reportagem mostrando que o áudio foi criado por um grupo de comediantes cariocas. Escrevi novamente para os meus amigos com a má notícias. A grande maioria não acreditou. Rebateram com outras tantas fontes de blogs e páginas pessoais na tentativa de me convencer que o falso era verdadeiro. No final das contas, cada um acreditou no que quis.

Meus amigos, Trump, Bolsonaro ou qualquer outro que tente desacreditar a imprensa faz porque conhece a imensa crise de credibilidade que o jornalismo enfrenta. Parte do problema surgiu junto com a revolução digital. Em um mundo conectado, onde todos podem dar sua opinião, não basta o texto estar sob o selo do jornal para ser crível. Nós temos à nossa disposição mais hipóteses, mais debates acontecendo ao mesmo tempo e não recorremos a apenas uma fonte para nos informar.

O resultado tem um lado muito positivo. Com o avanço da internet e das redes sociais, diversas ideias antes escondidas do mainstream ganham visibilidade – feminismo e cultura LGBTQ+, por exemplo, nunca estiveram tão em alta. O monopólio do conteúdo não está mais restrito aos grandes meios de comunicação e qualquer um pode gravar um áudio, um vídeo, fazer uma foto, escrever um texto, mostrar-se para o mundo. Saímos da era dos poucos formadores de opinião para outra esfera, na qual vivemos entre muito fomentadores de opinião: youtubers, podcasters, instagrammers, digital influencers, blogueiros. Chamamos essa proliferação de vozes de polifonia digital.

Apesar de democratizar a informação, esse movimento na internet também gera desinformação e ruído. Com tanta gente falando, não sabemos em quem acreditar – e aqui não me refiro apenas aos produtores de conteúdo. Um áudio de WhatsApp repassado por um conhecido ou amigo pode tornar-se ainda mais relevante que uma reportagem sobre o mesmo tema, ainda que o primeiro seja apenas uma opinião e o segundo traga consigo todo um método de apuração.

O estudo “Espiral da Verdade” aponta que a confiança na informação cresce conforme maior for a vivência do interlocutor. Entre os brasileiros, 78% dos entrevistados considera a experiência pessoal muito importante para dar uma opinião. “Eu vi, logo, sei”. Como se a experiência vivida por cada um fosse mais importante do que pesquisas científicas, testadas e retestadas, debatidas durante anos nas comunidades acadêmicas. Foram-se os dias em que havia fé nas instituições, nas autoridades e na mídia. Hoje a origem e a veracidade da informação ficam em segundo plano e o mais importante é que o argumento apoie o que se pensa. E é por isso que ninguém mais consegue dialogar na internet. Mais da metade (65%) dos brasileiros já entraram em discussões via WhatsApp, e 54% deles não mudaram de opinião depois da briga.

Em nossa pesquisa, chamamos esse fenômeno de boia-factual. Em um mar revolto de argumentos e informações sem fim, cada pessoa se agarra a um conjunto de informações que a ajudam a ter uma opinião e a evitar o afogamento. Cada qual com sua boia, nós navegamos sozinhos com nossas certezas. Até que chega uma onda – uma nova polêmica – que nos faz começar todo o processo novamente.

Antes da Era Digital nós tínhamos menos informação, menos vozes e mais certezas. Hoje temos mais informação, mais vozes e mais dúvidas. E não podemos voltar atrás. Não é mais viável desejar que a imprensa seja a única fonte de informação, e por outro lado também não se pode ficar à mercê de informações duvidosas apenas porque é o que se quer ouvir.

É necessário criar um filtro que permita o consumo de informação de maneira saudável, traga vozes diferentes para o debate e ofereça conteúdo de qualidade e credibilidade. Se antes a imprensa fazia essa curadoria para nós, em tempos de Espiral da Verdade somos chamados a tomar a dianteira e escolher onde e como vamos consumir conteúdo. Não posso dizer se é melhor ou pior, mas o fato é que agora o poder de decisão está em nossas mãos. E já é hora de assumirmos a responsabilidade por isso.

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Estamos infotoxicados! http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/estamos-infotoxicados/ http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/estamos-infotoxicados/#respond Tue, 18 Jun 2019 19:00:11 +0000 http://michelalcoforado.blogosfera.uol.com.br/?p=86 Vim de férias ao Japão e demorei a me acostumar com o fuso de 12 horas. Fora o fator biológico, o maior problema é não estar em dia com as minhas notificações. Assim que abro o celular pela manhã, sou bombardeado com conteúdo que chegou aos montes enquanto eu dormia. Mensagens de amigos, caixa de e-mails lotada, notícias que não param de chegar, atualizações dos meus aplicativos, tudo se acumula. Aqui, tudo virou do avesso.

A quantidade absurda de informação não é exatamente uma novidade. Quando estou no Brasil, meu celular vibra o dia inteiro, avisando as novidades do mundo. Mas, só agora tive a oportunidade de adquirir um certo distanciamento, e foi quando percebi o quanto estava infotoxicado.

Infotoxicação é um estado em que o indivíduo fica tão sobrecarregado de conteúdo que perde a capacidade de assimilar o que chega de novo.  Aqui, do outro lado do mundo, é diferente pois consigo fazer uma curadoria do que quero consumir de informação. Na minha vida “normal”, em meio a correria do dia a dia, manter esse filtro é uma tarefa quase impossível. É tanta novidade aparecendo que muitas coisas se perdem.

O brasileiro passa, em média, nove horas e catorze minutos conectado por dia. Não estou longe dessa estatística, mas, para captar toda a informação que me aparece na rede, nem 24 horas bastariam. O estudo “Espiral da Verdade”, realizado pelo Consumoteca Lab, mostra que, assim como eu, 78% dos brasileiros consideram-se incapazes de assimilar todo o conteúdo a que estão expostos diariamente. Mais da metade abre as redes sociais logo que acorda e 33% deles posta imediatamente nas redes sociais tudo que acha de interessante.

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na tela do celular, surge ainda o problema para decidir o que é prioridade. Checar os trending topics, passear na timeline, assistir stories, responder mensagem da mãe, limpar a caixa de e-mail do trabalho, acompanhar as últimas notícias do governo… o que fazer primeiro? Dividimos nossa atenção entre várias tarefas secundárias com o mínimo de atenção, absorvendo só o que for extremamente necessário e deixando muita coisa de lado.

O bombardeio de conteúdo é tamanho que acabou por matar até o ócio. Hoje em dia, o momento de pausa passou a ser a hora em que procuramos algo para fazer, de preferência, abrindo as redes sociais. Estamos em uma cultura em que temos mais coisas a realizar, ler, ver, ouvir e descobrir do que temos disponibilidade. E sentimos que estamos perdendo tempo se não nos adequamos a essa estrutura. Não leu suas mensagens assim que acordou? Não escutou o novo podcast no caminho para o trabalho? Não está por dentro da polêmica da vez? Você está perdendo tempo.

Há os que argumentem justamente o contrário, dizendo que passar horas e horas em frente à tela é o que efetivamente rouba o nosso tempo. A saída então, seria se afastar da internet, fazer um detox digital. Dani Arrais, sócia da Contente, em um dos episódios do CaosCast contou que já tempos faz jejum intermitente digital. Isto é, todos os dias, das 22 horas as 10 da manhã, deixa o celular de lado e fica longe das redes sociais. O objetivo da técnica é deixar de usar a rede ou diminuir a frequência por tempo determinado. Tentar é fácil, manter o hábito é que são elas…

Entre os entrevistados na pesquisa, 45% disseram já ter passado pelo processo e outros 31% sentem vontade de experimentar. O principal motivo é “descansar a mente” (37%), seguido de perto por “me concentrar em outras atividades” (34%). Nos últimos lugares estão “me sentir menos dependente de redes sociais e WhatsApp (25%) e “outros” (4%).

Fui introduzido pelas férias em um detox forçado e o resultado não foi bem o que eu esperava. Fiquei melhor por estar mais tranquilo, mas preocupado temo estar desatualizado. Como parte considerável das nossas vidas acontece virtualmente, afastar-se desse ambiente faz com que nos sintamos automaticamente excluídos. Através do celular podemos pedir comida, falar com a família, ler notícias, trabalhar, interagir com amigos, pagar contas, a vida está dentro da tela. Ficar apartado disso tudo é como estar de fora de uma piada interna que parece que todos conhecem, menos você.

Não há remédio para a Infotoxicação. Qualquer solução é apenas como aquelas rodinhas das gaiolas dos hamsters: parecem funcionar, mas não resolve. Inicialmente percebemos que estamos infotoxicados, e então tentamos parar de consumir tanta informação. Em seguida nos damos conta que somos dependentes do digital, e voltamos a consumir mais conteúdo do que somos capazes de absorver.

“É mais fácil parar de fumar do que sair do Twitter”, disse um dos entrevistados do estudo. À época, achei a comparação um exagero. Agora que estou longe de casa e um pouco afastado do meu celular, entendo melhor o que ele quis dizer. Vou exemplificar: há poucos dias eu estava turistando em um ryokan tradicional no meio de uma floresta de bamboo no interior do Japão. Mais do que a paisagem,  o que mais me perturbava era saber que por conta da minha abstinência forçada das redes sociais, provavelmente, fui o último a saber das conversas vazadas entre Moro e Dallagnol. Mais um ponto para a infotoxicação.

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