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Michel Alcoforado

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Problemas para dormir? Seu celular tem muita culpa nisso

Michel Alcoforado

10/10/2019 04h00

(Foto: Marcelo Alves/Onipress Photos/Folhapress)

As expressões populares sintetizam dilemas e problemas cotidianos com bom humor e perspicácia. Rodeados de "santos do pau oco", "amigos da onça" e "chatos de galocha" fica difícil "colocar a mão no fogo" por alguém. Diante da crise moral e econômica, é melhor nos juntar aos nossos para "chorar as pitangas", "colocar panos quentes" sobre os problemas e curtir. Se passamos o dia com "a corda no pescoço", fica cada vez mais difícil dormir tranquilo. Não caímos mais nos "braços de Morfeu" como antes.

Nos últimos 10 anos, aumentou em 13% o número de pessoas com problemas para dormir na cidade de São Paulo. Os dados divulgados pelo Instituto do Sono, em parceria com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostram que, em 2008, 67% dos habitantes da cidade tinham problemas para dormir; já em 2018, esse número passou para 80%. Além disso, 26,7% despertam precocemente, 36,5% têm dificuldade de manter o sono (garantindo a qualidade da noite bem dormida) e 25% não conseguem iniciar o sono. 

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Já não se dorme mais nas grandes cidades só por conta do seu ritmo de trabalho ou da rede de comércio 24 horas. Pesquisadores acreditam que a dificuldade de mobilidade e a baixa escolaridade da população urbana fazem com que as rotinas de trabalho tenham horários que desafiem o relógio biológico. Tudo porque o sono dos moradores das grandes cidades está relacionado ao "perrengue" da mobilidade. Como os empregos estão distribuídos de maneira desigual no espaço urbano, há uma alta concentração dos empregos nas regiões centrais. Aqueles que moram longe dessas regiões acabam tendo menos horas de sono. 

Segundo uma pesquisa recente da Rede Nossa São Paulo, na Barra Funda, bairro da região central da cidade, há 59 postos de emprego formal para cada 10 habitantes em idade ativa. Em Cidade Tiradentes, bairro mais carente, localizado no extremo leste da capital, há 0,2 postos de emprego formal para cada 10 habitantes — índice 246 vezes menor. Além disso, se você considerar o tempo de médio de 2h43 por dia gasto em transporte público, o paulistano acaba sofrendo para transitar por São Paulo e dar conta da rotina. São privilegiados aqueles que moram perto do trabalho e podem dormir tranquilos, seja porque perdem pouco tempo no trânsito ou por não se estressar com o caos urbano na volta para casa.

Além disso, outro ponto que impacta gravemente as horas dormidas é a escolaridade da população. É importante considerar que mais da metade dos brasileiros não terminaram o Ensino Médio, e 41,4% dos trabalhadores está em situação informal. Em geral, profissionais com baixa escolaridade tendem a ter rotinas de trabalho que começam fora do padrão "das 9h às 18h": ou entrando muito mais cedo, ou terminando muito mais tarde. Por consequência, são eles, os trabalhadores que sofrem com a falta de horas de sono. 

Assim, a vida nas grandes metrópoles junto às jornadas desafiadoras abrem as portas para que imaginemos um futuro em que dormir será um luxo para poucos. Ficar sem dormir impacta não só a qualidade de vida, mas também a produtividade no trabalho. Os mal dormidos sofrem com a sonolência durante o dia, baixa de energia, dificuldade em se concentrar, depressão, problemas de saúde e alta propensão a cometer acidentes. Sem falar que estão mais sujeitos a acidentes de trânsito, domésticos e de trabalho. A situação tende a piorar e não haverá soluções fáceis no médio prazo.

Não há problema sem solução, dirá o leitor apaixonado por startups e inovações tecnológicas. É verdade!

É crescente o número de aplicativos dispostos a ajudar os usuários a terem um boa noite de sono. Em minhas pesquisas com millennials sobre bem-estar, tenho visto o uso massivo de soluções tecnológicas para nos ajudar a esvaziar a mente e dormirmos melhor. Acabou o tempo em que iríamos medir a qualidade do nosso sono pela disposição ao acordar. Agora, há gráfico e aplicativo para tudo.

Na última semana, fui convencido a entrar na onda. Baixei o SleepCycle. Com acesso ao microfone do celular e com sensores que medem a movimentação na cama, o app promete controlar e monitorar todo o sono. É só dizer que horas deitou, colocar o smartphone ao lado do travesseiro e, no outro dia pela manhã, você receberá um gráfico sobre a sua "performance", com quantidade de minutos por tipo de sono, o barulho do seu ronco e tudo mais. E o melhor, tudo pode ser compartilhado com a rede de amigos no Facebook ou no Twitter. É uma promessa de sucesso!

Só tem um detalhe: os fissurados nas inovações do Vale do Silício esqueceram que a luminosidade da tela dos smartphones reduz a produção da melatonina, um hormônio que age diretamente nos padrões de sono. Pesquisadores da Universidade de Toledo, nos Estados Unidos, mostraram que a luz azul é formada por um espectro de infinitas cores, sendo muito similar à luminosidade do Sol em dia de calor. Isso tem um papel fundamental para regular o nosso relógio biológico. Assim, dormir após olhar por muito tempo a tela do celular tem o mesmo efeito que passar uma tarde em um parque tomando banho de sol. Com isso, os aplicativos de descanso, sejam eles de meditação, sono ou plenitude, sofrem uma contradição: prometem paz, calma e relaxamento, mas precisam da ajuda da luz azul que desperta energia, senso de prontidão e vivacidade. Pensando nisso, será que a principal função é nos ajudar a dormir, mesmo?

É certo que não. Até porque eles tiram o sono pela quantidade de dilemas éticos que nos apresentam. Tais aplicativos introduzem em nosso cotidiano a certeza de que há uma forma correta de dormir e que todos temos de prossegui-la. Abrem brechas para que concorramos com outros até quando dormimos. De que serve o compartilhamento desse tipo de dado com a rede de amigos?

Sem falar que eles redefinem a nossa relação entre o público e privado. Antes, o sono era algo da esfera individual ou daqueles que compartilhavam conosco o mesmo ambiente de dormir. Agora não! Dormiremos todos com as Big Techs do outro lado da cama. Só para os grandes conglomerados de tecnologia terem acesso aos dados, até no nosso descanso. Estão usando essas informações de forma que nem sabemos.

Com tudo isso, o mesmo jogo que nos obriga produzir em larga escala é o que nos tira a produtividade por causa da noites mais dormidas sob efeito das luzes azuis. O mesmo sistema que nos promete liberdade e possibilidades infinitas também está controlando cada passo seu. É só o começo.

E é de tirar o sono.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca – uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Sobre o Blog

O ritmo de mudanças da vida contemporânea desafia o nosso entendimento. É cada vez mais comum nos confrontamos com notícias surreais, histórias mirabolantes e casos surpreendentes. O mundo parece não fazer mais sentido. Nesse blog, vamos nos debruçar sobre comportamentos cotidianos e processos de transformação da sociedade para entender quem somos.